Grupos no Telegram que organizavam manifestações contra a eleição de Lula foram derrubados em menos de 10 minutos
Apenas um dia depois de Luiz Inácio Lula da Silva ser confirmado como vencedor das eleições de 2022, o gabinete paralelo do ministro Alexandre de Moraes agiu com urgência para conter caminhoneiros que protestavam contra a eleição do petista para a Presidência da República. É o que mostram as mensagens obtidas.
Em 1º de novembro de 2022, no começo das manifestações, o juiz auxiliar de Moraes no Supremo Tribunal Federal (STF), Airton Vieira, enviou demandas ao então chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Eduardo Tagliaferro.
“Eduardo, consegue checar para mim o que segue abaixo?”, perguntou. “As combinações de atividades terroristas e de distúrbio estão saindo dessa conta”, acrescentou Vieira, referindo-se a um perfil não identificado nas redes sociais. Eduardo Tagliaferro respondeu: “São manifestações de caminhoneiros, estão se movimentando para paralisar o Brasil”. Em seguida, indagou: “Estou com uma série de grupos manifestando sobre isso, saímos pelo STF ou TSE?”.
A resposta de Vieira indicou o rumo que seria tomado: “Consegue um relatório simples, para fins de eventual bloqueio?”.

No diálogo, Eduardo Tagliaferro alertou: “Já estão paralisando diversas rodovias, qual vai ser o tratamento disso?”. A resposta de Airton Vieira foi curta: “Não sei…”. Minutos depois, Tagliaferro reagiu com ironia: “Lascou”.

Na sequência, a conversa se voltou para a possibilidade de a Polícia Rodoviária Federal (PRF) atuar para conter os caminhoneiros. Vieira perguntou: “O TSE tem o e-mail da PRF?”.

Gabinete paralelo de Moraes derrubou grupos de caminhoneiros em menos de 10 minutos
Na noite do mesmo dia, o grupo avançou na coleta de informações. Vieira compartilhou um levantamento de grupos de caminhoneiros no Telegram, recebido de um policial civil de São Paulo: “Boa tarde, doutor Airton! Tudo bem? Recebi essa relação feita por um colega da Polícia Civil de SP. Levantamento dos grupos do Telegram dos caminhoneiros. Além de outros”.


O material incluía links para canais e grupos de diversos Estados, como Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais, Mato Grosso e Bahia. Vieira encaminhou a relação, e o juiz auxiliar de Moraes no TSE, Marco Antônio Vargas, agradeceu: “Obrigado, Airton! Eduardo, poderia checar se já foram derrubados?”.
Em menos de 10 minutos, Tagliaferro confirmou que os grupos haviam sido derrubados: “Cumpridos!”.

O que é a Vaza Toga
As informações e os documentos divulgados nesta reportagem, acrescentam novos e graves detalhes aos fatos que começaram a vir à luz a partir das revelações contidas em reportagens publicadas inicialmente pelo jornal Folha de S. Paulo, no que ficou conhecido como Vaza Toga.
As primeiras denúncias foram feitas por Glenn Greenwald e Fábio Serapião.
Novos documentos comprometedores vieram à tona em apuração de David Ágape e Eli Vieira, publicadas no site Public.
*Fonte: Revista Oeste