Ativos de banco extinto em SC abasteceram fraudes investigadas no Banco Master

O BC relatou que aproximadamente R$ 11,5 bilhões foram lavados por meio dessa estrutura, envolvendo operações entre julho de 2023 e julho de 2024

Uma investigação sobre fraudes financeiras revelou que certificados de ações do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), adquiridos por fundos da gestora Reag Trust, desempenharam papel central em operações irregulares atribuídas ao Banco Master. Esses certificados, conhecidos como cártulas, são documentos físicos vinculados a ações do antigo Besc, incorporado pelo Banco do Brasil em 2008, e eram usados para inflar artificialmente o valor dos fundos de investimento.

Os gestores dos fundos compravam esses papéis, de baixa liquidez e valor reduzido, por preços significativamente acima do mercado. O objetivo era justificar retiradas para novos investimentos em outros fundos da própria Reag, criando um ciclo que, segundo suspeitas, beneficiava “laranjas” ligados a Daniel Vorcaro, ex-banqueiro e dono do Master. O esquema permitia que ativos sem valor real fossem registrados como milionários, ampliando o patrimônio dos fundos e facilitando o desvio de recursos.

Reag Trust, Arandu e atuação das autoridades

A assessoria da Reag informou à Folha que a gestora foi vendida para a Arandu Investimentos em outubro, orientando que esclarecimentos sobre operações passadas entre 2023 e 2024 fossem buscados com os novos controladores. A Arandu não respondeu ao contato, enquanto o Banco Master optou por não se manifestar. O Banco Central identificou indícios de fraude e acionou o Ministério Público Federal, propondo o bloqueio de recursos envolvidos no esquema.

As cártulas circulavam entre diferentes fundos no mesmo dia, caracterizando o que investigadores descreveram como uma fraude “grosseira” baseada em movimentações financeiras simuladas.

O Banco Central relatou que aproximadamente R$ 11,5 bilhões foram lavados por meio dessa estrutura, envolvendo operações entre julho de 2023 e julho de 2024, período anterior à venda das carteiras de créditos podres citada na denúncia inicial do BC, que fundamentou a prisão de Vorcaro em novembro passado. A investigação aponta que o processo começava com empréstimos do Master para empresas ligadas ao esquema, com valores que chegavam a R$ 500 milhões por operação.

Funcionamento do esquema e ciclo de lavagem envolvendo o Banco Master

O roteiro das fraudes incluía empréstimos do Master para empresas — oficialmente não relacionadas ao banco, mas participantes do esquema — que aplicavam os valores recebidos em fundos da Reag, em vez de investir em suas atividades. As transações aparentavam estar dentro dos parâmetros legais exigidos pelo acordo de Basileia, mas, na prática, mascaravam desvios de recursos. Os gestores da Reag usavam o dinheiro para adquirir ativos desvalorizados por preços elevados, inflando o patrimônio dos fundos e completando o ciclo de lavagem de dinheiro.

O vendedor do ativo depreciado lucrava ao receber quantias acima do valor real e, logo depois, investia os recursos em outros fundos, fazendo com que o dinheiro circulasse até chegar a veículos financeiros ligados a “laranjas” do grupo Master. As empresas beneficiadas conseguiam empréstimos com prazo de carência de quatro anos, ocultando a falta de pagamento das dívidas e atrasando a identificação das irregularidades.

Queda do esquema e desdobramentos finais

O colapso do esquema começou a se manifestar no último trimestre de 2024, quando o Master enfrentou uma crise de confiança. A instituição teve dificuldades para captar novos recursos por meio de CDBs, agravando a falta de liquidez e comprometendo o pagamento de dívidas em aberto. Diante do cenário, em vez de vender ativos legítimos, o banco passou a criar ativos fictícios de crédito consignado, que foram posteriormente negociados com o BRB, banco controlado pelo Distrito Federal. Segundo o Banco Central, essas operações totalizaram R$ 12,2 bilhões.

*Fonte: Revista Oeste