Produtores fazem ‘cortejo fúnebre’ e protestam contra crise e dívidas rurais no RS

Ato ‘Luto pelo agro’ reuniu agricultores em Não-Me-Toque (RS) para denunciar endividamento rural e cobranças sobre a produção

A abertura da Expodireto Cotrijal 2026 foi marcada por um protesto de produtores rurais na manhã desta segunda-feira, 9, em Não-Me-Toque (RS). Agricultores realizaram um “cortejo fúnebre” simbólico denominado “Luto pelo Agro”, com cruzes pretas e um caixão, para denunciar as dificuldades financeiras enfrentadas pelo setor.

Além disso, a ação representa os 36 produtores rurais que tiraram a própria vida, em razão do endividamento no campo.

A mobilização começou nas primeiras horas do dia, a partir das 6h30. Os manifestantes percorreram cerca de seis quilômetros até o parque da feira, às margens da RS-142, onde ocorre o evento.

Durante a exposição, o deputado federal Luciano Zucco (PL-RS) discursou ao lado do vice-governador do Rio Grande do Sul, Gabriel Souza, e do senador Luis Carlos Heinze. Zucco criticou a negligência dos governantes em relação ao agro no Brasil, sobretudo o gaúcho.

“Temos 40% do PIB gaúcho no agro, e menos de 5% de terras irrigadas”, reforçou o deputado, ao citar que não há políticas permanentes de irrigação e combate à estiagem.

De acordo com os organizadores, o ato buscou chamar atenção para a situação de produtores gaúchos que enfrentam dificuldades depois de sucessivas perdas de safra e aumento dos custos de produção.

O presidente da Associação dos Produtores e Empresários Rurais (Aper), Arlei Romeiro, disse a Oeste que “variações climáticas” podem gerar endividamentos. No entanto, o produtor rural possui garantias na lei, que prevê prorrogação de dívidas.

“O cumprimento da lei pelas instituições financeiras tem de acontecer”, reforçou Romeiro. “A obrigação de fiscalizá-las é do Banco Central. A maioria delas tira o produtor rural do crédito rural e o joga em um crédito comum, com taxas de juros muito mais elevadas.”

Romeiro explicou que o Projeto de Lei 320, da securitização (prorrogação da dívida), estabelece 20 anos de prazo, quatro anos de carência e com taxas de juros que variam de 1% a 3%, a depender da categoria de pequeno, médio e grande produtor.

Conforme o representante da Aper, o PL 320/25 está parado na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Os produtores também reivindicam o PL 5122/23, que permite a renegociação das dívidas com prazo maior e com recursos do Fundo Social do Pré-sal.

O movimento recebeu apoio público da organização do evento. O presidente da Expodireto Cotrijal, Nei César Manica, manifestou solidariedade aos agricultores durante a cerimônia de abertura. Para Manica, a feira atua como uma “caixa de ressonância” para os problemas do setor, servindo de palco para que as dificuldades cheguem às autoridades competentes.

Endividamento rural no RS

Durante o protesto, agricultores destacaram o endividamento no campo como principal preocupação. Representantes do movimento afirmam que instituições financeiras deixam de aplicar normas previstas no Manual de Crédito Rural, que garantem a prorrogação de dívidas em casos de frustração de safra.

Outra reivindicação apresentada pelos produtores envolve a cobrança de royalties sobre sementes de soja. Documentos foram entregues à empresa Bayer, à cooperativa Sicredi, ao Banco do Brasil e outras instituições financeiras para pedir esclarecimentos sobre taxas e multas aplicadas na comercialização do grão, tema questionado por entidades do setor.

O Banco do Brasil recebeu vaias quando uma das integrantes que estava no stand pediu para fechar a porta no momento em que os manifestantes se aproximaram para entregar o documento. O resto das instituições assinou o documento.

Apoio de autoridades

O vice-governador do Rio Grande do Sul, Gabriel Souza, disse a Oeste que haverá uma reunião para discutir o PL 5122 junto do governador do RS, Eduardo Leite, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. O encontro ocorrerá em Brasília na próxima quarta-feira, 11. O objetivo é “aumentar a pressão” sobre a aprovação do projeto, que já passou pela Câmara dos Deputados e está parado no Senado.

“Vamos colocar o ‘bode na sala’ junto ao presidente da República”, relatou. “E que venha alguma solução que passa pela securitização das dívidas.”

De acordo com o senador Heinze, o governo federal não aprovou, em 2025, a proposta de securitização. A medida prevê prorrogação por 20 anos das dívidas e emissão de títulos do Tesouro de R$ 150 bilhões (valor da dívida no agro) para pagar os bancos.

“Tentamos em março, abril, maio, essa proposta”, contou. “Eles não aceitaram pelo argumento de impacto nas contas públicas. As contas públicas já estão desequilibradas. É solução para um setor importante da economia brasileira, que é o agronegócio. O Rio Grande do Sul tem quase um PIB inteiro perdido ao longo dos últimos anos.”

Realizada em Não-Me-Toque, interior do Estado gaúcho, a Expodireto Cotrijal ocorre de 9 a 13 de março. A manifestação ocorreu antes da abertura oficial da programação do evento.

Veja mais fotos do ato “Luto pelo agro”, no RS

'Cortejo fúnebre' em Não-Me-Toque (RS) | Foto: Tauany Cattan/Revista <b>Oeste</b>
‘Cortejo fúnebre’ em Não-Me-Toque (RS) | Foto: Tauany Cattan/Revista Oeste

*Fonte: Revista Oeste