Escritório de Ibaneis firmou contrato de R$ 38 mi com fundo ligado à Reag

A gestora é apontada como peça central no esquema de fraudes relativo ao Banco Master e negociações com o BRB

O escritório de advocacia do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, firmou um contrato de R$ 38 milhões para a venda de honorários de precatórios a um fundo ligado à Reag, gestora investigada pela Polícia Federal (PF) por suposta participação no esquema de desvio de recursos envolvendo o Banco Master.

O acordo foi fechado em maio de 2024, período em que o Banco de Brasília (BRB) já vinha adquirindo carteiras da instituição controlada por Daniel Vorcaro. As informações são da coluna de Malu Gaspar no jornal O Globo.

A PF e o Ministério Público Federal (MPF) apontam a Reag como peça central no esquema de fraudes do Master. A gestora integra uma complexa rede de fundos utilizada para distribuir valores captados em transações consideradas irregulares, o que dificultaria a identificação da origem e do destino final do dinheiro.

O empresário João Carlos Mansur, fundador da Reag Investimentos | Foto: Divulgação/Reag
O empresário João Carlos Mansur, fundador da Reag Investimentos | Foto: Divulgação/Reag

Em março de 2025, o diretor do fundo que firmou contrato com o escritório de Ibaneis também atuava como representante do grupo em assembleias de acionistas do BRB.

Nessa função, ele votava em nome do fundo Borneo, igualmente investigado pela PF por ter sido utilizado em uma operação do Master e da Reag para adquirir 25% do controle do BRB por um valor abaixo do praticado no mercado, ao mesmo tempo em que negociavam carteiras consideradas fraudulentas.

De acordo com a PF, em junho o Borneo chegou a deter 4,5% do capital total do BRB e mais de 12% das ações preferenciais do banco. Esses papéis estão atualmente bloqueados por decisão judicial.

Fachada do prédio do Banco de Brasília (BRB)
Fundado em 1964 o Banco de Brasília é uma instituição financeira pública brasileira, constituída como sociedade de economia mista e capital aberto, controlada pelo Governo do Distrito Federal – Brasília (DF), 19/11/2025 | Foto: Joédson Alves/ Agência Brasil

O contrato envolvendo o escritório Ibaneis Advocacia e Consultoria foi assinado em 29 de maio de 2024. Pelo acordo, os direitos creditórios sobre honorários advocatícios — avaliados nominalmente em R$ 38 milhões, com data-base de dezembro de 2021 — foram cedidos ao fundo Reag Legal Claims, que hoje opera sob o nome Pedra Azul.

Precatórios são ordens de pagamento emitidas pela Justiça contra municípios, Estados ou a União. Em geral, levam anos para serem quitados, pois dependem de decisões judiciais definitivas.

Nesse tipo de operação financeira, o comprador adquire o direito de receber os honorários advocatícios — normalmente destinados a quem ingressou com a ação judicial — com desconto em relação ao valor nominal, já que se trata de créditos de difícil e demorado recebimento.

Liquidação extrajudicial da Reag foi anunciada nesta quinta-feira, 15 de janeiro | Foto: Divulgação/Reag
Liquidação extrajudicial da Reag foi anunciada em 15 de janeiro | Foto: Divulgação/Reag

No caso do fundo Pedra Azul, a dívida total envolvida no conjunto de operações era de R$ 381,2 milhões. Não há registro de que o fundo tenha recebido os valores relativos aos honorários negociados.

O termo de cessão foi assinado por Luzineide Getro de Carvalho, gerente administrativa do escritório do governador, e por Ramon Pessoa Dantas, diretor da Reag, de acordo com O Globo. Também participou da transação o escritório Engels Augusto Muniz Sociedade Individual de Advocacia, ligado ao grupo político de Ibaneis.

O fundo Reag Legal Claims tem como diretor Marcos Ferreira Costa, que desde o ano passado representa a Reag e o Borneo em assembleias de acionistas do BRB. Ele também aparece nos registros da Comissão de Valores Mobiliários como responsável pela Reag DTVM, instituição que foi posteriormente liquidada pelo Banco Central (BC).

A resolução da CVM proíbe qualquer negociação de papéis por acionistas controladores, diretores e conselheiros de um empresa nos 15 dias que antecedem a divulgação do seu balanço | Foto: Divulgação/CVM
Comissão de Valores Mobiliários, o “xerife” do mercado financeiro do Brasil | Foto: Divulgação/CVM

Defesa de Ibaneis nega relação com a Reag

A Reag teve sua liquidação decretada pelo BC em janeiro, dois meses depois de medida semelhante aplicada ao Banco Master. De acordo com a autarquia, a decisão aconteceu em razão de “graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes do sistema financeiro nacional”.

Além do caso relacionado ao Master, a gestora também é alvo da Operação Carbono Oculto, conduzida pela Polícia Federal, que investiga lavagem de dinheiro de facções criminosas no mercado de combustíveis e em instituições financeiras.

No fim de fevereiro, a Justiça Federal em Brasília determinou o bloqueio das ações do BRB controladas por investigados no escândalo do Master, incluindo o fundo Borneo. Naquele momento, o Master, a Reag e o Will Bank já haviam sido liquidados extrajudicialmente pelo BC. A medida judicial busca assegurar eventual ressarcimento ao BRB por prejuízos relacionados ao esquema.

Banqueiro Daniel Vorcaro, em depoimento à Polícia Federal, nega irregularidades na condução dos negócios do Banco Master | Foto: Reprodução/Polícia Federal

As investigações também apontaram outra ligação entre a Reag e o escândalo do Master. Diante da liquidação do banco, em novembro do ano passado, Vorcaro teria ocultado R$ 2,2 bilhões que deveriam ser preservados para o pagamento de credores pelo liquidante indicado pelo BC. O valor teria sido transferido para uma conta em nome de seu pai, Henrique Vorcaro, na própria gestora.

Em nota assinada por seis advogados, a defesa de Ibaneis Rocha afirmou que o governador está afastado de seu escritório desde 2018 e que, por isso, “não possui informações sobre negociações realizadas quase seis anos depois de seu afastamento”. Segundo os advogados, Ibaneis “nunca participou de quaisquer negociações” com Marcos Ferreira Costa ou com a Reag.

Ainda assim, a operação milionária entre o escritório e a gestora — realizada durante o período de negociações envolvendo o Banco Master e pouco antes da tentativa de aquisição de 25% do BRB — tornou-se mais um episódio cercado de questionamentos envolvendo o governador do Distrito Federal.

conversas de vorcaro e namorada sobre Ibaneis
Conversa interceptada pela PF mostra Vorcaro dizendo que estava em Brasília com Ibaneis Rocha | Foto: Reprodução/PF

Ibaneis Rocha foi eleito pela primeira vez em 2018 e reeleito em 2022. Advogado de carreira, é conhecido pelo forte trânsito no Judiciário de Brasília e chegou a presidir a seccional da Ordem dos Advogados do Brasil no Distrito Federal.

Depois dos atos do 8 de janeiro, Ibaneis chegou a ser afastado do cargo por quase três meses por decisão do ministro Alexandre de Moraes, sob suspeita de negligência diante das manifestações. Posteriormente, retomou o mandato e não foi indiciado no inquérito que investiga o suposta plano de golpe de Estado.

Com o avanço das investigações sobre o Banco Master, contudo, o governador voltou a enfrentar pressão política e jurídica, sobretudo por sua relação institucional com o BRB e pela indicação de Paulo Henrique Costa para a presidência da instituição — executivo que foi afastado pela Justiça em novembro.

O ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa: afastado pela Justiça e demitido pelo governo | Foto: Lúcio Bernardo Jr/Agência Brasília
O ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa: afastado pela Justiça e demitido pelo governo | Foto: Lúcio Bernardo Jr/Agência Brasília

Ibaneis também enfrenta pedidos de impeachment na Câmara Legislativa do Distrito Federal, enquanto sua possível candidatura ao Senado tem sido colocada em dúvida até por aliados.

A compra do Master pelo BRB — posteriormente classificada pela Justiça como uma operação de “pura camaradagem” — foi defendida publicamente pelo governador em diferentes ocasiões. Ele argumentava que o negócio poderia gerar dividendos bilionários e transformar o BRB em um banco de atuação nacional.

“O BRB passará a estar, a partir desta fusão, entre os grandes bancos do país”, declarou Ibaneis em agosto de 2025, ao sancionar a aprovação da Câmara Distrital para a aquisição da instituição privada.

Diante a deflagração da Operação Compliance Zero da Polícia Federal e a posterior liquidação do Master, o governador afirmou que eventuais problemas nas negociações teriam sido resultado de um “excesso de confiança” no então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, responsável por conduzir as tratativas.

Polícia Federal exibe itens apreendidos na Operação Compliance Zero | Foto: Montagem sobre reprodução/Divulgação/PF
Polícia Federal exibe itens apreendidos na Operação Compliance Zero | Foto: Montagem sobre reprodução/Divulgação/PF

Vorcaro disse à PF ter mantido conversas com governador

Em depoimento à PF no fim de dezembro, Daniel Vorcaro afirmou ter mantido “conversas institucionais” com Ibaneis Rocha sobre as negociações envolvendo o BRB, em encontros com a presença de outras pessoas. O governador, por sua vez, declarou que encontrou o banqueiro apenas uma vez e que não discutiram detalhes do negócio.

O controlador da Reag, João Carlos Mansur, é conhecido no mercado como parceiro de negócios de Vorcaro. A proximidade entre os dois aparece inclusive em redes sociais: em uma publicação de 2022 no LinkedIn, Mansur divulgou uma selfie com o banqueiro acompanhada da legenda “Dia de comemorar com os amigos”.

Entre os negócios realizados em conjunto está a compra do Will Bank, em 2024. No mesmo ano, Reag e Banco Master também adquiriram, ao lado do empresário Nelson Tanure, ações do grupo GPA, controlador da rede Pão de Açúcar, de olho na possível venda das operações brasileiras pelo grupo Casino.

Tanure é apontado pela PF e pelo Ministério Público Federal como sócio oculto do Banco Master — acusação que o empresário nega.

O empresário Nelson Tanure é investigado no caso que envolve o Banco Master | Foto: Reprodução/X
O empresário Nelson Tanure é investigado no caso que envolve o Banco Master | Foto: Reprodução/X

Rombo bilionário

Sob pressão do Banco Central para recompor liquidez e patrimônio diante do rombo provocado pela fraude no Banco Master, o BRB iniciou uma força-tarefa para vender ativos próprios e outros herdados da instituição privada. A tentativa é compensar o prejuízo relacionado a uma carteira de crédito fraudada estimada em R$ 12,2 bilhões.

A corrida ocorre diante do temor, no governo do Distrito Federal e dentro do próprio BRB, de uma eventual intervenção do Banco Central ou até mesmo de uma federalização da instituição para evitar sua quebra.

Embora tenha conseguido vender parte das carteiras de crédito originais do banco e arrecadar cerca de R$ 5 bilhões, as ofertas do BRB foram recebidas com desconfiança por agentes do mercado financeiro, especialmente em relação à precificação dos ativos.

CPI do Crime Organizado Ibaneis
Governador do DF, Ibaneis Rocha recusou convite para comparecer a sessão da CPI do Crime Organizado I Foto: Divulgação/Agência Brasília

Na última semana, a Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovou um projeto destinado a capitalizar o banco estatal e evitar sua insolvência. A proposta prevê um empréstimo de R$ 6,6 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), além da cessão de nove imóveis públicos. O texto recebeu 14 votos favoráveis e 10 contrários, mas ainda aguarda sanção do governador.

Nos bastidores, Ibaneis buscava adiar uma decisão definitiva e transferir a responsabilidade para a vice-governadora, Celina Leão, em vista de sua eventual desincompatibilização para disputar o Senado — prevista para ocorrer até o início de abril. A estratégia seria evitar uma admissão explícita de erro na autorização da compra do Banco Master.

Apesar disso, o governador tem sido pressionado a assumir responsabilidade política pelos prejuízos diante do risco de intervenção no BRB.

*Fonte: Revista Oeste