Jorge Messias: do “Bessias” da Lava Jato à indicação ao STF

Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para uma vaga no Supremo Tribunal Federal, Jorge Rodrigo Araújo Messias voltou ao centro do debate político nacional. Atual Advogado-Geral da União, ele construiu sua trajetória dentro de governos petistas e se tornou uma das figuras mais próximas do núcleo jurídico do Palácio do Planalto.

Conhecido nacionalmente pelo episódio que originou o apelido de “Bessias”, Messias reúne passagens marcantes por temas como a Operação Lava Jato, judicialização de pautas morais e sociais, debates sobre liberdade de expressão, ações envolvendo o INSS e posicionamentos sobre segurança pública.

O episódio do “Bessias”

Jorge Messias ganhou notoriedade nacional em 2016, durante a Operação Lava Jato, quando foi citado em uma conversa telefônica entre a então presidente Dilma Rousseff e Lula.

Na gravação divulgada pelo então juiz Sergio Moro, Dilma afirmou:

“Estou mandando o Bessias junto com o papel para ele usar em caso de necessidade.”

O vídeo foi trazido pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL) em suas redes sociais.

Segundo Nikolas, a referência era ao termo de posse de Lula como ministro da Casa Civil. À época, a nomeação foi interpretada por opositores como uma tentativa de garantir foro privilegiado ao ex-presidente, transferindo eventuais investigações para o STF. A baixa qualidade do áudio fez com que o nome “Messias” soasse como “Bessias”, apelido que permanece até hoje no debate político.

Carreira jurídica e ascensão no PT

Messias ingressou na Advocacia-Geral da União em 2007 como procurador da Fazenda Nacional. Durante o governo Dilma, atuou como subchefe para Assuntos Jurídicos da Casa Civil, posição estratégica dentro do governo federal.

Com a volta de Lula à Presidência em 2023, foi nomeado Advogado-Geral da União, assumindo um dos principais cargos jurídicos da Esplanada.

Desde então, passou a liderar a defesa institucional do governo em pautas sensíveis e ações no STF.

Debate sobre aborto e assistolia fetal

Um dos temas que mais geraram repercussão foi a manifestação da AGU sobre a resolução do Conselho Federal de Medicina que restringia a chamada assistolia fetal em gestações acima de 22 semanas. O tema foi trazido em um vídeo recente feito por Caio Coppolla.

O procedimento consiste na aplicação de substâncias no coração do feto para provocar a parada cardíaca antes da realização do aborto. O CFM havia proibido a prática em determinados casos, argumentando questões éticas e médicas.

De acordo com Coppolla, a AGU, sob comando de Messias, assinou parecer defendendo que a proibição era inconstitucional, sustentando que o conselho não poderia alterar regras já previstas na legislação sobre aborto legal. O posicionamento gerou forte reação entre grupos pró-vida, especialmente pelo fato de Messias se declarar cristão e evangélico em encontros com lideranças religiosas.

Sigilo de pagamentos na AGU

Outro episódio que gerou repercussão envolveu a suspensão temporária da divulgação de honorários pagos a membros da AGU.

Durante oito meses, dados sobre pagamentos deixaram de ser publicados no Portal da Transparência. Segundo reportagens da época, os valores movimentados no período somaram bilhões de reais.

Reportagem feita pelo site Metrópoles e divulgada em 16 de julho de 2025.

A justificativa oficial apresentada foi incompatibilidade técnica entre sistemas. A divulgação foi retomada após questionamentos da imprensa e de órgãos de controle.

Fraudes no INSS e exclusão de entidades investigadas

Em 2024, um relatório interno apontou suspeitas de descontos irregulares em benefícios previdenciários de aposentados, envolvendo entidades sindicais e associações.

Entre as organizações citadas estava um sindicato ligado a Frei Chico, irmão do presidente Lula.

Quando a AGU ingressou com pedidos judiciais de bloqueio patrimonial, nem todas as entidades apontadas no relatório foram incluídas. A exclusão de algumas organizações gerou críticas da oposição, especialmente pela ausência do sindicato ligado ao familiar do presidente.

Procuradoria de Defesa da Democracia

Sob a gestão de Messias, foi criada a Procuradoria Nacional da Defesa da Democracia, órgão destinado ao combate à desinformação e à defesa institucional da democracia.

Críticos da iniciativa passaram a chamar a estrutura de “Ministério da Verdade”, argumentando que o governo passaria a atuar diretamente na definição do que seria verdade ou desinformação no debate público.

O tema ganhou força especialmente diante de discussões sobre regulação das redes sociais e responsabilização de plataformas digitais.

Saída temporária de presos e segurança pública

Messias também foi citado no debate sobre a chamada “saidinha” de presos do regime semiaberto.

Após o Congresso aprovar mudanças para restringir ou encerrar o benefício em determinados casos, o presidente Lula vetou parte da proposta. O posicionamento foi respaldado pela equipe jurídica do governo.

O tema voltou ao debate após casos de crimes cometidos por detentos beneficiados pela saída temporária, como o assassinato do sargento da Polícia Militar Roger Dias, em Minas Gerais, morto durante uma abordagem a um criminoso que estava foragido após não retornar ao presídio.

8 de janeiro e posição sobre anistia

Messias também se posicionou de forma contrária a propostas de anistia relacionadas aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023.

Em declarações públicas, afirmou que qualquer tentativa de anistia a envolvidos nos ataques às sedes dos Três Poderes representaria afronta à democracia.

Matéria do site Correio do Povo, publicada no dia 31 de outubro de 2024.

A fala repercutiu entre parlamentares conservadores e grupos que defendem revisão de penas aplicadas aos condenados.

Indicação ao STF

Com a formalização de seu nome para o STF, Jorge Messias passou a concentrar atenções tanto de aliados quanto de opositores.

Para apoiadores do governo, trata-se de um jurista experiente e preparado tecnicamente para a Suprema Corte.

Já entre setores conservadores e da oposição, a proximidade com o PT, os posicionamentos em pautas sensíveis e a atuação direta em defesa do governo Lula ampliaram a resistência à sua indicação.

A decisão final dependerá da sabatina e votação no Senado Federal.