Deputado de Mato Grosso acumula iniciativas contra integrantes da Corte desde pelo menos 2022; registros oficiais mostram representações contra Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes, enquanto documentos mostram pedidos feitos também contra Edson Fachin e Flávio Dino
O embate do deputado federal José Medeiros (PL-MT) com integrantes do Supremo Tribunal Federal não começou durante a campanha eleitoral de 2026. Registros oficiais do Senado mostram que, desde pelo menos 2022, o parlamentar apresenta representações e subscreve pedidos de impeachment contra ministros da Corte.
Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes aparecem em documentos oficiais do Senado que identificam Medeiros nominalmente como autor ou signatário. Em agosto deste ano, o deputado afirmou ainda já ter apresentado pedidos contra Edson Fachin e Flávio Dino.

No caso de Moraes, a ofensiva política avançou além do impeachment. Em 2026, Medeiros passou a defender publicamente também a prisão do ministro.
Barroso: pedido protocolado em março de 2022
Um dos primeiros registros oficiais dessa sequência é a PET 2/2022, apresentada ao Senado em 30 de março de 2022.
O sistema de atividade legislativa do Senado identifica José Medeiros como autor da representação que requeria o impeachment do ministro Luís Roberto Barroso. O documento foi encaminhado à Advocacia do Senado para elaboração de parecer.
No pedido, Medeiros questionava uma série de atuações e manifestações públicas de Barroso. Entre os episódios mencionados estavam manifestações feitas pelo ministro durante sua passagem pela presidência do Tribunal Superior Eleitoral e a participação de Barroso em um seminário nos Estados Unidos sobre o desenho constitucional do Poder Executivo na América Latina.
Medeiros sustentou na representação que Barroso teria ultrapassado os limites que, em sua interpretação, deveriam orientar a atuação político-institucional de um integrante do Judiciário. As acusações constam da petição do parlamentar e não representam conclusão judicial sobre a conduta do ministro.
Novo pedido contra Barroso em 2023
Barroso voltou a ser alvo de um pedido de impeachment subscrito por Medeiros no ano seguinte.
A PET 11/2023 reuniu dezenas de deputados e senadores e apontou manifestações públicas do então ministro do STF como fundamento para a abertura de processo de impeachment.
Entre os episódios citados pelos parlamentares estava uma declaração de Barroso durante congresso da União Nacional dos Estudantes, em julho de 2023, quando afirmou: “Nós derrotamos o bolsonarismo”.
Os autores argumentaram que manifestações desse tipo representariam posicionamento político-partidário incompatível com o cargo. Barroso afirmou posteriormente que se referia à derrota do extremismo e do golpismo, e não aos eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Alexandre de Moraes: sucessivas representações em 2022
A atuação de Medeiros contra Alexandre de Moraes também está documentada no Senado.
Em 18 de maio de 2022, o gabinete do deputado encaminhou ao então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, denúncia por crime de responsabilidade contra Moraes.
A representação tinha como um de seus principais fundamentos a atuação do ministro no caso do então deputado federal Daniel Silveira. Medeiros questionava a condução do inquérito, a condenação do parlamentar e medidas determinadas por Moraes mesmo depois da concessão de graça constitucional a Silveira pelo então presidente Jair Bolsonaro.
Na denúncia, Medeiros sustentou que Moraes teria atuado em situação de impedimento e questionou o acúmulo de funções no âmbito das investigações. Essas eram as alegações do parlamentar; não constituem, por si, reconhecimento de crime de responsabilidade pelo Senado ou pelo STF.
Operação contra empresários levou a outro pedido
Poucos meses depois, Medeiros apresentou nova representação.
A PET 11/2022 foi apresentada em 31 de agosto daquele ano. O registro do Senado identifica José Medeiros como autor e Alexandre de Moraes como alvo da denúncia.
Desta vez, a iniciativa ocorreu depois de Moraes autorizar medidas contra empresários que integravam um grupo de WhatsApp no qual foram discutidos cenários de ruptura institucional caso Jair Bolsonaro não fosse reeleito.
As determinações incluíram busca e apreensão, bloqueio de perfis em redes sociais e quebra de sigilo bancário.
Na representação, Medeiros contestou a fundamentação e a proporcionalidade das medidas. Argumentou que as providências haviam sido adotadas a partir de conversas privadas e de informações inicialmente divulgadas pela imprensa.
O parlamentar enquadrou a conduta que atribuía a Moraes nos dispositivos da Lei nº 1.079/1950 que tratam dos crimes de responsabilidade de ministros do STF.
Outra representação contra Moraes em outubro
O histórico oficial mostra ainda a PET 12/2022.
Apresentada em 18 de outubro de 2022, ela também identifica Medeiros como autor de representação contra Alexandre de Moraes e utiliza como fundamento o artigo 41 da Lei nº 1.079/1950, a Lei do Impeachment.
Com isso, somente em 2022, os registros públicos do Senado mostram mais de uma iniciativa de Medeiros contra Moraes. Em audiência no Senado em 30 de novembro de 2022, Medeiros chegou a defender que Moraes fosse “contido” e “preso”, atribuindo ao ministro a prática de crimes. A declaração consta das notas taquigráficas oficiais da Casa.
Fachin e Flávio Dino entram na lista citada por Medeiros
A lista apresentada pelo próprio deputado é mais ampla.
Em entrevista ao AgoraPod, divulgada em 30 de agosto de 2026, Medeiros afirmou que já havia apresentado pedidos de impeachment contra quatro integrantes do STF: Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, Edson Fachin e Flávio Dino.
Na mesma entrevista, fez novas críticas a Dino e afirmou que o ministro deveria ser observado por, na avaliação do parlamentar, adotar comportamento próximo da atividade político-partidária.
Em 2026, Medeiros pede a prisão de Moraes
A disputa ganhou novo capítulo em 1º de setembro de 2026.
Medeiros pediu publicamente que o ministro André Mendonça determinasse a prisão de Alexandre de Moraes.
A manifestação ocorreu após a divulgação de mensagens atribuídas a Moraes e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Reportagens daquele período informaram que as mensagens incluíam questionamentos de Vorcaro sobre riscos de prisão e eventual saída do Brasil antes de uma operação policial.
Medeiros comparou o episódio ao caso do ex-senador Delcídio do Amaral, preso em 2015 por ordem do STF depois da divulgação de uma conversa sobre medidas destinadas a evitar que o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró fechasse acordo de colaboração premiada.
Ao fazer a comparação, Medeiros argumentou que deveria ser aplicado a Moraes o mesmo critério utilizado no caso de Delcídio.
A cronologia disponível nos documentos públicos mostra que a atuação de Medeiros em favor de processos de impeachment de ministros do STF antecede em pelo menos quatro anos a eleição de 2026.