Cenário econômico marcado por incerteza continua exigindo cautela na condução da política monetária, diz BC
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) afirmou, em ata da última reunião publicada nesta terça-feira, 22, que manterá uma “restrição adequada” da política monetária para “assegurar a convergência da inflação à meta”.
O documento apresenta as explicações técnicas que levaram o órgão a cortar 0,25 ponto porcentual na taxa básica de juros da economia, a Selic, agora em 13,75% ao ano. A decisão foi anunciada na semana passada.
Foi a quinta redução consecutiva da Selic. Com a decisão do Copom, a taxa de juros alcançou o menor nível em um ano e meio, desde março de 2025. O atual ciclo de queda da Selic começou em março deste ano, sempre com cortes de 0,25 ponto porcentual a cada reunião. Naquela ocasião, o Copom promoveu o primeiro corte de juros desde 2024.
A taxa básica de juros é o principal instrumento dos bancos centrais para controlar a inflação. Quando a autoridade monetária mantém os juros elevados, o objetivo é conter a demanda aquecida, o que se reflete nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança. Assim, taxas mais altas também podem conter a atividade econômica
O que diz a ata do Copom
De acordo com a ata da última reunião do Copom, o cenário econômico ainda marcado por forte incerteza continua exigindo cautela na condução da política monetária.
“No contexto atual de incerteza em níveis historicamente elevados, com riscos assimétricos na direção altista para os preços, o Comitê reitera que a magnitude do ciclo de calibração [definição dos juros] será ajustada à luz da evolução do cenário, de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, afirma o BC no documento.
“Embora a política monetária esteja contribuindo de forma determinante para o processo de desinflação, a inflação permanece pressionada pela demanda, exigindo que a política monetária mantenha caráter restritivo”, prossegue o Copom.
No documento, a autoridade monetária afirma ainda que “choques de oferta”, como a alta nos preços internacionais do petróleo causada, principalmente, pela guerra entre Estados Unidos e Irã exerce “influência relevante tanto sobre a trajetória recente da inflação quanto sobre sua trajetória prospectiva”.
“O Copom avalia que não deve reagir aos efeitos primários de choques dessa natureza, mas que é necessário monitorar com atenção eventuais efeitos de segunda ordem, e reagir com firmeza caso esses efeitos se materializem”, diz a ata.
Inflação e questão fiscal
O Copom também destacou a preocupação com a inflação doméstica, embora tenha observado que “leituras mais recentes” apontam para desaceleração do índice de preços ao consumidor.
“As expectativas de inflação, medidas por diferentes instrumentos e obtidas de diferentes grupos de agentes, permanecem acima da meta de inflação em todos os horizontes. Foi ressaltado que o custo de desinflação sobre o nível de atividade ao longo do tempo é maior em ambientes com expectativas desancoradas”, diz o BC.
Outro foco de preocupação da autoridade monetária segue sendo a política fiscal do governo, com expansão dos gastos públicos, o que pode “afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida”.
“Uma política fiscal que atue de forma contracíclica e contribua para a redução do prêmio de risco favorece a convergência da inflação à meta”, diz a ata.
“O Comitê reafirma a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade”, completa o BC.
O Copom manifesta sua “firme convicção de que as políticas devem ser previsíveis, críveis e anticíclicas”. “Em particular, o debate do Comitê reforça, novamente, a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas”, diz o texto.
Análise
Segundo Pablo Spyer, conselheiro da Ancord, “a ata do Copom deixa um recado que o mercado precisa ouvir: o corte da Selic aconteceu, mas a festa dos juros baixos ainda não está contratada”. “O BC reconhece que os efeitos da política monetária restritiva finalmente estão aparecendo com mais força na economia, com desaceleração do PIB, do crédito e dos setores mais sensíveis aos juros. Mas, ao mesmo tempo, a inflação continua acima da meta e, principalmente, as expectativas seguem desancoradas”, afirma.
Para Spyer, o ponto mais importante da ata é que o próprio Copom afirma que, nesse ambiente, “é necessária uma política monetária restritiva maior e por mais tempo do que seria normalmente apropriado”.
“Portanto, a ata traz mais pistas, mas não entrega uma trajetória definida para os próximos cortes. O BC mantém a porta aberta para continuar reduzindo a Selic, mas deixa claro que o ritmo e a magnitude dependerão dos próximos dados. E os dados que podem fazer toda a diferença são justamente inflação, expectativas, atividade e cenário fiscal”, avalia.
Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, observa que a ata “veio com o tom em linha com o comunicado da semana anterior, sinalizando um Copom confiante com o processo de arrefecimento e desinflação da economia, mesmo diante de um ambiente externo mais incerto e manutenção de expectativas desancoradas”.
“Isso sinaliza uma diretoria mais inclinada a suavizar o ciclo do que promover uma desaceleração mais intensa da economia para garantir uma convergência mais rápida e com menos riscos da inflação à meta”, afirma Lin.
Para Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, a ata “reforçou a desaceleração da atividade, em especial dos setores mais cíclicos, conforme já constava no comunicado”. “A inflação mostrou melhora, situando-se abaixo do limite de tolerância, mas acima da meta, tanto no dado cheio, quanto na média das medidas subjacentes”, aponta.
“Outro destaque da ata foi a menção a desaceleração da concessão de crédito, nas medidas mais sensíveis à política monetária. Com relação aos próximos passos, a autoridade monetária deixou a ‘porta aberta’, ou seja, ela seguirá dependente dos dados para definir a evolução da taxa Selic”, conclui Oliveira.
*Fonte: Revista Oeste