Conversas mostram cobranças por publicações sobre políticos e pedidos de interferência em conteúdos jornalísticos
O banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, perguntou à então superintendente de comunicação da instituição, Ana Lúcia Matos, qual seria o “repórter maldoso mais confiável que temos”. Em resposta, a ex-funcionária indicou três jornalistas que classificou como “maldosos controlados”: Guilherme Amado, Léo Dias e Diego Escosteguy.
A conversa, de 18 de julho de 2025, foi encontrada pela Polícia Federal (PF) no celular de Vorcaro, investigado por suspeitas de fraudes bancárias bilionárias. As mensagens não esclarecem o motivo da consulta nem o que o banqueiro fez depois de receber os nomes.
Segundo o Estadão, os diálogos também mostram reclamações de Vorcaro sobre publicações contrárias a seus interesses e pedidos de interferência em conteúdos jornalísticos.
Em março de 2025, Ana Matos informou ao banqueiro que Guilherme Amado entrevistaria Paulo Henrique Costa, então presidente do Banco de Brasília (BRB), e teria solicitado sugestões de perguntas. Vorcaro demonstrou surpresa, mas aprovou uma lista encaminhada pela funcionária.
Amado negou ter pedido sugestões. Segundo ele, informou as perguntas a Flávio Carneiro, proprietário do PlatôBR, depois de uma consulta sobre a entrevista. Carneiro também atuava como conselheiro e assessor de imagem de Vorcaro.
Vorcaro pediu ataques a adversários e retirada de conteúdos

Outras mensagens mostram Vorcaro pressionando Carneiro por publicações envolvendo aliados políticos, como o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o senador Ciro Nogueira (PP-PI).
Em maio de 2025, o banqueiro reclamou de um vídeo publicado por Amado que mostrava Ciro abraçando o empresário Ricardo Magro, da Refit, em Nova York.
“Ou resolce (sic) isso agora em todos. Ou ta cancelado todo projeto”, escreveu Vorcaro. Também afirmou que não poderia financiar uma “agenda própria” contra Ciro, a quem chamou de irmão.
Carneiro confirmou ao Estadão que acolheu o pedido de Vorcaro, alegando que o conteúdo não correspondia à linha editorial do PlatôBR. O vídeo permaneceu disponível no perfil pessoal de Amado.
Em agosto, Vorcaro também pediu a Carneiro que utilizasse o veículo para atacar Ricardo Cappelli, ex-interventor da segurança pública do Distrito Federal. O banqueiro perguntou se Amado poderia realizar a tarefa e insistiu: “Esse tem que atacar sem dó”.
Amado negou ter recebido pedidos para publicar informações negativas sobre Cappelli ou ter prestado serviços a Vorcaro. O jornalista deixou o PlatôBR em março de 2026, depois de tomar conhecimento da proximidade entre Carneiro e o banqueiro. Segundo ele, sua coluna publicou 19 reportagens críticas ao Master.
Carneiro afirmou que a conversa sobre Cappelli foi retirada de contexto e baseada em informações posteriormente consideradas incorretas.
Contatos identificados pela PF
As mensagens também registram conversas sobre Diego Escosteguy, proprietário do site O Bastidor. Ana Matos relatou reuniões com o jornalista e pedidos de patrocínio para o veículo.
A PF identificou no celular de Vorcaro um rascunho de reportagem publicada posteriormente pelo site sobre um processo criminal sigiloso. Segundo os investigadores, o banqueiro havia obtido ilegalmente informações da Justiça Federal e utilizado a divulgação para tentar impedir sua prisão.
Escosteguy afirmou que sua relação com Vorcaro sempre foi profissional e negou interferência no conteúdo editorial. Também destacou que O Bastidor publicou reportagens críticas ao Master desde 2023.
Outro nome citado é Léo Dias. Segundo o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o jornalista recebeu ao menos R$ 9,9 milhões diretamente do Banco Master, além de R$ 2 milhões de uma empresa financiada majoritariamente pela instituição.
Procurado pelo Estadão, Léo Dias não se manifestou. Ana Matos afirmou que não teve acesso às mensagens originais e que não poderia confirmar sua autenticidade.
*Fonte: Revista Oeste