Custo do crédito e insegurança jurídica devem frear setor imobiliário em 2027

Saída de recursos da poupança empurra o financiamento da casa própria para títulos privados e deixa parcelas mais sensíveis ao risco fiscal

O custo do dinheiro e a falta de segurança jurídica devem ser os principais obstáculos ao mercado imobiliário brasileiro em 2027. A avaliação é de Daniel Gava, CEO da Rooftop, startup de tecnologia para o setor. O próximo ano marca a entrada em vigor do novo modelo de crédito imobiliário, que muda a forma como os bancos usam os depósitos da poupança para financiar imóveis.

A mudança ocorre num momento em que a caderneta, principal fonte de recursos da casa própria para a classe média, perde dinheiro mês a mês. Com menos recursos baratos disponíveis, o financiamento passa a depender de investidores privados — e, portanto, da confiança do mercado nas contas do governo.

“O próximo ciclo do mercado imobiliário não será travado pela falta de demanda, mas pelo custo do capital”, disse Gava. “Estamos vivendo a maior transição de funding da história do setor, onde o crédito imobiliário está saindo do subsídio da poupança tradicional para se conectar diretamente ao mercado de capitais.”

Funding é o termo usado no mercado financeiro para designar a origem do dinheiro que os bancos emprestam.

selic dívida pública Brasil Economia Sede do Banco Central | Foto: Divulgação
De acordo com o BC, os brasileiros sacaram R$ 9,35 bilhões a mais do que depositaram na poupança em setembro | Foto: Divulgação/BC

Os números do Banco Central (BC) mostram a dimensão do problema. Os brasileiros sacaram R$ 9,35 bilhões a mais do que depositaram na poupança em setembro, e as retiradas líquidas de 2026 já somam R$ 66,4 bilhões. Em 2025, a modalidade havia fechado com saída líquida de R$ 85,568 bilhões.

O dado mais sensível para o setor está no Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), a fatia da caderneta destinada ao crédito habitacional. De janeiro a setembro de 2026, as retiradas superaram os depósitos no SBPE em R$ 53,22 bilhões. Nos últimos cinco anos, a poupança perdeu R$ 273 bilhões em saques líquidos.

Para tentar responder à escassez, o governo federal anunciou, em outubro de 2025, o Novo Modelo de Crédito Imobiliário. uma reformulação das regras de uso da poupança no financiamento habitacional. Pela regra antiga, os bancos precisavam aplicar 65% dos depósitos da poupança em crédito imobiliário, recolher cerca de 20% ao BC como depósito compulsório e podiam usar 15% livremente.

A nova regra eleva de forma gradual o porcentual aplicado em crédito imobiliário até chegar a 100% do saldo.

Mercado Imobiliário, para ilustrar o texto da opinião do setor sobre a reforma tributária
Prédios residenciais na cidade de Santos, Litoral Sul de São Paulo | Foto: Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo

Os bancos resistem ao calendário. Segundo o jornal Valor Econômico, as instituições devem pedir ao BC o adiamento por um ano da entrada em vigor, prevista para janeiro de 2027. Elas também levaram ao regulador um pedido de revisão do teto de 12% ao ano para operações do Sistema Financeiro da Habitação.

O argumento é que os juros não caíram no ritmo que o setor esperava. A taxa básica de juros, a Selic, está em 13,75% ao ano. O Comitê de Política Monetária do BC reduziu a taxa em 0,25 ponto porcentual em 16 de setembro, no quinto corte consecutivo. O mercado projeta a Selic em 12% no fim de 2027, segundo o Boletim Focus.

“Com a escassez de recursos do SBPE, o financiamento para a classe média migra para taxas de mercado”, afirmou Gava. “Se a percepção de risco fiscal elevar os juros de longo prazo, o custo das parcelas sobe, comprimindo o poder de compra das famílias e desacelerando as vendas.”

A inflação e a taxa Selic, que permanece em dois dígitos desde 2022, encarecem o crédito
A inflação e a taxa Selic, que permanece em dois dígitos desde 2022, encarecem o crédito | Foto: IA

Juros de longo prazo são as taxas cobradas nos títulos do Tesouro com vencimento distante. Elas sobem quando os investidores desconfiam da capacidade do governo de honrar a dívida. A Dívida Bruta do Governo Geral chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto em agosto, o equivalente a R$ 11,055 trilhões, segundo o BC — o maior nível desde 2021.

“Nesse cenário, o valor do financiamento na ponta final para o comprador depende menos de canetadas e diretamente da credibilidade fiscal do governo e do comportamento dos juros de longo prazo”, disse o empresário.

Insegurança jurídica também compromete setor imobiliário

Para substituir a poupança, os bancos terão de captar dinheiro com títulos vendidos a investidores. Os principais são o Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI), a Letra de Crédito Imobiliário (LCI) e a Letra Imobiliária Garantida (LIG), todos lastreados em financiamentos de imóveis. Gava cita também os fundos de investimento em infraestrutura.

Governo Lula prepara cobrança do IOF sobre investimentos isentos sem passar pelo Congresso - Foto: EBC
Governo Lula prepara cobrança do IOF sobre investimentos isentos, como o LCI, sem passar pelo Congresso – Foto: EBC

“Para suprir a lacuna da poupança, é vital manter a atratividade e a previsibilidade regulatória dos títulos do mercado de capitais como CRIs, LCIs, LIGs e FI-Infras, garantindo que investidores institucionais e pessoas físicas continuem irrigando o setor”, declarou.

Outro desafio apontado por Gava está nos tribunais. A Lei 14.711/2023, o Marco Legal das Garantias, estendeu às hipotecas o procedimento extrajudicial de execução, que permite ao banco retomar o imóvel pelo cartório, sem ação judicial, quando o comprador deixa de pagar. O mecanismo já valia para a alienação fiduciária, modalidade em que o imóvel fica em nome do banco até a quitação.

O Supremo Tribunal Federal (STF) validou as duas regras. No fim de 2023, a Corte declarou constitucional a execução extrajudicial na alienação fiduciária de imóvel, com voto divergente do ministro Edson Fachin, para quem o procedimento seria incompatível com o direito à moradia.

Em junho de 2025, por 10 votos a 1, o STF confirmou a constitucionalidade do Marco Legal das Garantias.

STF OAB mandato ministros Judiciário
A sede do STF, em Brasília; Corte declarou constitucional a execução extrajudicial na alienação fiduciária de imóvel | Foto: Fábio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

A segurança na retomada do bem afeta diretamente o spread — a diferença entre o custo de captação do banco e os juros cobrados do cliente. Quanto menor o risco de calote não recuperado, menor tende a ser essa margem.

“A consolidação prática do Marco Legal das Garantias e a preservação do direito de propriedade são essenciais para reduzir o risco de crédito das operações, permitindo que as instituições financeiras diminuam o spread bancário”, afirmou Gava.

O próximo passo no front dos juros ocorre na reunião do Copom de 3 e 4 de novembro. Para o empresário, porém, o desafio vai além da Selic. “A grande missão da gestão pública será criar estabilidade e segurança jurídica para atrair o capital privado e manter o setor imobiliário como motor do crescimento econômico.”

*Fonte: Revista Oeste