Dólar sobe e bolsa cai com eleição nos EUA, Copom e medo de tabelamento de juros

Na véspera da decisão do Banco Central sobre a taxa básica de juros, dólar operava em alta ante o real e Ibovespa recuava nesta manhã

Na primeira sessão do mercado brasileiro na semana, depois do feriado de Dia de Finados, na segunda-feira 2, o dólar operava novamente em alta ante o real, em meio à expectativa dos agentes econômicos pela reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que definirá a taxa básica de juros no Brasil. O encontro do Copom começa nesta terça-feira, 3, e termina na quarta-feira 4, quando a Selic será anunciada. 

Ainda no cenário doméstico, os investidores reagem com apreensão às discussões sobre um eventual tabelamento da taxa de juros no país, proposta defendida pelo economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, que teria sido bem recebida por integrantes do governo, embora a equipe econômica negue qualquer intenção nesse sentido. 

No âmbito internacional, o principal destaque do dia são as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos – as chamadas midterms –, que acontecem nesta terça. De acordo com a maioria das pesquisas, o Partido Democrata, de oposição ao governo de Donald Trump, deve obter a maioria dos assentos na Câmara dos Deputados e no Senado. Se isso se confirmar, será uma derrota política para Trump, do Partido Republicano. 

Dólar

  • Por volta das 10h10 (pelo horário de Brasília), o dólar avançava 0,82% perante o real e era negociado a R$ 5,489. 
  • Na cotação máxima da sessão até aqui, a moeda dos EUA bateu R$ 5,515. A mínima é de R$ 5,474. 
  • Na sessão de sexta-feira 30, o dólar fechou em alta de 1,05%, cotado a R$ 5,444. 
  • Com o resultado, a moeda norte-americana fechou o mês de outubro com ganhos de 5,22%. No acumulado do ano, a queda é de 0,81%. 

Ibovespa

  • O Ibovespa, principal indicador do desempenho das ações negociadas na Bolsa de Valores do Brasil (B3), abriu o primeiro pregão da semana em baixa, ainda refletindo a cautela dos investidores. 
  • Às 10h10, o índice recuava 1,38%, aos 165.607,73 pontos. 
  • No último pregão da semana passada, o Ibovespa fechou em queda de 0,75%, aos 167,9 mil pontos. 
  • Com o resultado, a bolsa brasileira acumulou perdas de 9,88% em outubro. No acumulado de 2026, a valorização é de 4,22%. 

Indefinição sobre a Selic

No cenário doméstico, as atenções do mercado financeiro estão voltadas à reunião do Copom para a definição da taxa básica de juros, a Selic. Na última reunião do comitê, em setembro, a Selic caiu de 14% para 13,75% ao ano. 

A taxa básica de juros é o principal instrumento do BC para controlar a inflação. A Selic é utilizada nas negociações de títulos públicos emitidos pelo Tesouro Nacional no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) e serve de referência para as demais taxas da economia.

Depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na semana passada, houve uma reversão das expectativas dos analistas do mercado. Se antes a maioria esperava um novo corte de 0,25 ponto porcentual da Selic, agora cerca de 70% do mercado trabalha com a possibilidade de o Copom interromper o ciclo de queda dos juros e manter a taxa no patamar atual. 

Temor sobre tabelamento de juros

Além da preocupação com um agravamento do delicado quadro fiscal no quarto mandato de Lula, o mercado financeiro recebeu com perplexidade a proposta de tabelamento de juros apresentada por Lara Resende. 

A proposta prevê reduzir gradualmente a Selic, atualmente em 13,75% ao ano, para cerca de 7,5% em 12 meses. O economista também defende a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, que estabeleceria metas conjuntas para as políticas fiscal e monetária.

O atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que exista uma reunião marcada entre Lula e Lara Resende para discutir o assunto. Segundo o ministro, também não há negociações em andamento sobre as medidas sugeridas pelo economista.

A proposta ganhou repercussão depois de receber manifestações de apoio de nomes ligados ao PT, como a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR) e o ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli, coordenador do programa de governo de Lula na campanha de 2026.

As ideias causaram preocupação entre agentes do mercado, que veem riscos de interferência política na condução da política monetária. Entre as principais preocupações, estão a perda de credibilidade do Banco Central (BC), a desvalorização do real e o aumento da inflação.

Análise

Segundo Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, o “agudo movimento de aversão ao risco foi impulsionado primordialmente pela necessidade de um rápido reposicionamento por parte dos investidores”. 

“Até o fim do período eleitoral, parcela expressiva do mercado financeiro operava posicionada para um cenário de vitória do candidato Flávio Bolsonaro, o que exigiu um ajuste imediato e intenso das carteiras após a eleição de Lula. Com a consolidação desse novo cenário, as atenções se voltaram para as incertezas sobre o futuro da política fiscal e a trajetória das contas públicas, gerando forte cautela quanto à composição da nova equipe econômica”, afirma. 

Para as próximas semanas, observa Nossig, a expectativa é que “o mercado financeiro brasileiro continue operando sob grande sensibilidade ao noticiário político de transição”. 

“Os agentes financeiros aguardarão anúncios concretos sobre a gestão fiscal e os nomes que estarão à frente da economia para dissipar parte das incertezas e tentar estabilizar a precificação dos ativos. Dessa forma, a bolsa deve enfrentar um período prolongado de volatilidade, dependendo fundamentalmente de sinalizações claras de responsabilidade econômica para conseguir atrair novamente o fluxo de capitais”, avalia.

*Fonte: Revista Oeste