Com apoio formal do PT e de partidos do centrão, presidente da Câmara articula maioria para 2027
A formação de um bloco parlamentar que pode reunir 328 deputados, a adesão da federação formada por PT, PCdoB e PV e as negociações com o PL compõem a articulação política em torno da reeleição de Hugo Motta (Republicanos-PB) à presidência da Câmara dos Deputados. A votação está prevista para fevereiro de 2027, mas os partidos já discutem a distribuição de cargos na mesa diretora, o comando das comissões permanentes e a influência sobre a pauta legislativa.
Motta recebeu o apoio formal da federação encabeçada pelo PT em 27 de outubro. A decisão aproximou o partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva das legendas de centro que já haviam anunciado apoio à continuidade do deputado paraibano no comando da Casa. A composição inclui União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Federação PSDB-Cidadania e Podemos, entre outras siglas.
O acordo, contudo, não significa que todos os postos da próxima legislatura estejam distribuídos. A definição das presidências das comissões e dos cargos da mesa permanece como uma das etapas das negociações. Pelo regimento interno, o tamanho dos blocos parlamentares influencia a proporcionalidade na ocupação desses espaços.
PT negocia governabilidade e avanço de pautas

O apoio da federação PT-PCdoB-PV foi anunciado pelo líder petista na Câmara, Pedro Uczai (SC). Segundo o parlamentar, a aproximação com os partidos de centro pretende garantir condições para a tramitação das propostas defendidas pelo novo governo Lula.
“Estamos compondo com o bloco do centro, no espaço prático dentro da Casa, para permitir que a pauta avance”, afirmou Uczai.
A federação terá 88 deputados na próxima legislatura, dos quais 70 pertencem ao PT. Com a adesão das três legendas, o bloco de centro poderá alcançar 328 integrantes, número superior aos 257 votos necessários para eleger o presidente da Câmara em uma votação com os 513 deputados.
A líder do PCdoB, Jandira Feghali (RJ), apresentou outra justificativa para a aliança. Para ela, a composição também busca impedir que o PL assuma o comando do Legislativo.
“Nossa responsabilidade é impedir que o PL vença na Câmara e no Senado”, declarou a deputada.
Já o líder do PV, Aliel Machado (PR), citou a atuação de Motta em propostas relacionadas ao fim da escala de trabalho 6×1 e aos microempreendedores individuais como fatores considerados na decisão.
“O presidente Hugo colocou pautas extremamente importantes, como a escala 6×1 e os MEIs, mesmo em momentos difíceis”, afirmou Machado.
PL resiste à aliança e discute candidatura própria
A principal indefinição nas negociações envolve o Partido Liberal. A legenda elegeu 121 deputados federais e terá a maior bancada individual da Câmara a partir de 2027. Apesar disso, ainda não anunciou apoio formal à reeleição de Motta.
O partido está dividido entre integrantes que defendem um acordo para preservar espaço na estrutura da Câmara e parlamentares contrários à aproximação com o atual presidente da Casa.
A ala ligada ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, considera importante negociar a participação da legenda na divisão das comissões. Já deputados contrários à aliança defendem uma candidatura própria, mesmo diante dos apoios anunciados a Motta.
A divergência ficou evidente na reunião realizada na terça-feira 3, na sede do PL, em Brasília. O deputado Nikolas Ferreira (MG) declarou que prefere renunciar à possibilidade de presidir a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) a apoiar o atual presidente da Câmara.

“Entre a presidência da CCJ e entre manter a coerência, eu prefiro abrir mão da CCJ”, afirmou Nikolas.
O parlamentar também defendeu que o partido apresente um candidato próprio e mencionou os nomes de Luiz Philippe de Orléans e Bragança (SP) e Sóstenes Cavalcante (RJ) como alternativas.
Sóstenes, contudo, já havia anunciado que não pretendia disputar a presidência da Câmara diante da reeleição de Lula. “Sempre falei que seria presidente da Câmara se o Flávio ganhasse”, disse. “Não tenho interesse em ser candidato com o Lula.”
A bancada deve voltar a discutir o assunto em 11 de novembro, em reunião com os deputados eleitos para a próxima legislatura.
Comando da CCJ está no centro das negociações
A disputa pelas comissões permanentes ajuda a explicar a importância dos blocos parlamentares na eleição da mesa diretora da Câmara dos Deputados.
A CCJ é um dos colegiados mais disputados da Câmara. Cabe à comissão examinar a constitucionalidade, a juridicidade e a técnica legislativa de propostas, além de analisar o mérito de determinadas matérias.
O PL pretende preservar influência sobre comissões estratégicas, mas a formação de um bloco amplo em torno de Motta pode reduzir a capacidade da legenda de escolher os colegiados de sua preferência caso permaneça isolada.
Segundo informações apuradas, o partido avalia que poderá perder posições na ordem de escolha das presidências das comissões se não integrar a composição majoritária.
A negociação também enfrenta resistência entre os aliados de Motta. Integrantes do PT sinalizaram que podem deixar o bloco caso o presidente da Câmara feche um acordo para incluir o PL na mesma composição.
Assim, Motta precisa administrar interesses diferentes: de um lado, a federação de esquerda, que declarou apoio formal à sua reeleição; de outro, a maior bancada da próxima legislatura, que busca preservar influência sobre a estrutura da Câmara.
Os cargos que ainda estão em disputa
Além das comissões, os partidos discutem a composição da mesa diretora, responsável pela condução administrativa e legislativa da Câmara.
A mesa é formada pelo presidente, dois vice-presidentes e quatro secretários, além de suplentes. A distribuição desses postos observa a representação proporcional dos partidos e blocos, embora os acordos políticos também influenciem a formação das chapas.
O apoio anunciado pelas legendas a Motta ainda não permite afirmar que haja uma divisão definitiva desses cargos para 2027.
Também não há confirmação pública de um acordo que assegure ao PL a presidência da CCJ ou de outra comissão específica.
A diferença entre os apoios já formalizados e os cargos ainda em negociação será decisiva para compreender a composição do próximo comando da Câmara.
Apoios partidários não garantem votos individuais

A eleição da mesa diretora está marcada para 1º de fevereiro de 2027, quando começa a nova legislatura.
Embora Motta tenha recebido o apoio de partidos que, juntos, representam mais da metade dos 513 deputados federais, a votação será secreta. Isso significa que as manifestações das direções partidárias não obrigam os parlamentares a votar no candidato apoiado por suas legendas.
Até a eleição, a definição dos blocos, a distribuição dos cargos e a posição definitiva do PL continuarão no centro das articulações.
O resultado dessas negociações determinará não apenas quem ocupará a presidência da Câmara, mas também como serão distribuídos os principais espaços de influência legislativa a partir de 2027.
*Fonte: Revista Oeste