Guerra ameaça diplomacia do esporte no Golfo

Países como Catar, Emirados Árabes e Arábia Saudita passaram a investir em grandes eventos e em equipes, principalmente de futebol

O conflito no Irã começa a produzir efeitos além do campo militar. Já atinge uma das principais estratégias de projeção internacional dos países do Golfo: o esporte. Nas últimas duas décadas, governos da região passaram a investir bilhões de dólares em eventos, ligas e clubes estrangeiros para ampliar sua influência global. Cancelamentos recentes e interrupções de competições deixaram claro que a estabilidade política é vital para esse tipo de modelo.

O objetivo dessa estratégia visava ao chamado soft power (poder suave). Tal conceito, formulado pelo cientista político Joseph Nye, da Universidade Harvard, se refere à busca de influência de um país sobre outros sem uso da força militar ou da coerção econômica, o chamado hard power (poder duro), mas pela atração, pela imagem positiva e pelo prestígio cultural.

Foi essa lógica que levou países do Golfo a transformarem o esporte em vitrine global, mesmo que muitos deles sejam ditaduras rígidas e opressoras. O Catar alcançou um marco ao sediar a Copa do Mundo Fifa de 2022, quando o emir Tamim bin Hamad Al Thani entregou o troféu ao argentino Lionel Messi. O jogador estava envolto em um tradicional bisht (manto árabe). A diplomacia surtia efeito. Nem o fato de o terrorista Ismail Haniyeh (1962-2024), então líder do Hamas, acompanhar os jogos da TV no Catar, onde era acolhido, serviu para prejudicar os interesses do país.

A Arábia Saudita prepara-se para receber a Copa do Mundo da Federação Internacional de Futebol (Fifa) de 2034, enquanto os Emirados Árabes Unidos têm ampliado sua participação em eventos e consolidaram Dubai como um dos principais centros esportivos do planeta.

A expansão incluiu também a compra de clubes e a formação de redes globais de futebol. O fundo Qatar Sports Investments é um braço do governo. Entre seus investimentos principais estão a compra do Paris Saint-Germain (PSG), em 2011, a Liga Mundial de padel e a participação em clubes e eventos esportivos. Para o fundo, somente o PSG gera cerca de US$ 905 milhões de receita anual. Desde a compra do clube, custo do Catar no PSG é de cerca de US$10 bilhões, considerando salários, infraestrutura e outras despesas ao longo do período.

A Arábia Saudita, por meio do Public Investment Fund (PIF), tornou-se proprietária do Newcastle United, em 2021. O fundo administra US$ 900 bilhões em ativos, segundo o portal Invest Riyadh. Só a liga de golfe LIV Golf recebeu mais de US$ 5 bilhões desde 2022. No período, mais de US$ 6 bilhões já foram investidos diretamente em esportes (futebol, golfe, boxe, Fórmula 1, tênis, entre outros). As equipes saudidas Al-Nassr FC, Al-Hilal SFC, Al-Ittihad Club e Al-Ahli Saudi FC passaram para o controle majoritário do PIF em 2023, como parte da estratégia de transformar a Saudi Pro League em uma liga globalmente competitiva.

Já o Abu Dhabi United Group, ligado aos Emirados, dirige o Manchester City desde 2008 e a rede do City Football Group. O relatório financeiro do Manchester City mostra receita anual de cerca de US$ 881,5 milhões. As demonstrações financeiras do City Football Group indicam perda antes de impostos de aproximadamente o que equivale em libras e euros a US$ 155,2 milhões em 2023 e 2024. As receitas não evitam um déficit acumulado desde 2013 de cerca de US$ 1,24 bilhão. O grupo controla uma rede global de clubes, incluindo, além do Manchester, Girona FC, New York City FC e o Esporte Clube Bahia.

Países do Golfo e cancelamentos no esporte

Até agora não há sinais de retirada desses investimentos, financiados por fundos soberanos de grande porte e planejados para o longo prazo. Ainda assim, analistas consideram que um conflito prolongado pode alterar prioridades fiscais e pressionar orçamentos, sobretudo se gastos militares aumentarem ou se a insegurança regional afetar a realização de eventos.

Os primeiros impactos já aparecem no calendário esportivo. A chamada Finalíssima, partida que reuniria a campeã europeia seleção espanhola de futebol e a vencedora da Copa América, a seleção argentina, estava programada para 27 de março no Estádio Lusail, no Catar. O jogo foi cancelado depois que os organizadores analisaram, sem sucesso, a possibilidade de transferi-lo para a Europa. Esperava-se que cerca de 80 mil torcedores comparecessem ao local onde Messi levantou a taça da Copa do Mundo.

O automobilismo também teve prejuízos. Duas etapas da Fórmula 1, no Bahrein e na Arábia Saudita, foram canceladas, reduzindo o calendário da temporada de 24 para 22 corridas. Testes no Circuito de Sakhir, no Bahrein, chegaram a ser suspensos depois de relatos de atividade de mísseis na região.

O futebol local também foi afetado. A liga nacional do Irã, a Persian Gulf Pro League, foi interrompida, assim como campeonatos domésticos em países próximos, incluindo Catar, Bahrein, Kuwait, Iraque e Líbano. O Iraque, por exemplo, teve sua seleção classificada para a próxima Copa do Mundo mesmo com o campeonato nacional paralisado. No Catar, partidas da Qatar Stars League foram suspensas por razões de segurança. Jogos da Liga dos Campeões da Confederação Asiática de Futebol (AFC) também sofreram adiamentos.

Fica claro, com isso, um paradoxo geopolítico. Os países do Golfo Pérsico não estão respondendo diretamente com hard power, ou seja, com força militar, à agressão iraniana. Eles têm sido alvos de mísseis e de drones do Irã desde o início da guerra, em 28 de fevereiro. Ainda assim, mesmo sem entrar em conflito bélico, veem seu principal instrumento de influência internacional sofrer limitações.

Ao evitar a escalada militar, preservam a estabilidade interna, não aderem ao hard power, mas assistem ao enfraquecimento do soft power construído ao longo de anos por meio do esporte. Os estádios e os circuitos permanecem intactos. O que começa a se abalar é a narrativa de que a região é capaz de combinar riqueza e modernidade com segurança, para se tornar um dos centros do esporte global. Daqui a pouco, é possível que os investimentos não estejam mais intactos.

*Fonte: Revista Oeste