Vorcaro relativiza situação do Master em diálogo com ex-chefe do Banco Central

A troca de mensagens registrada em julho de 2024 antecedeu em um ano a liquidação da instituição bancária pelo BC

A correspondência entre Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, e Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-chefe-adjunto de supervisão do Banco Central, revela tentativas de amenizar falhas no recolhimento compulsório. A troca de mensagens, registrada em julho de 2024, antecedeu em um ano a liquidação do banco pelo BC e foi obtida depois da apreensão do celular de Vorcaro, sendo compartilhada com a CPI do INSS, conforme divulgou o jornal O Globo.

O Banco Central, ao encerrar as operações do Master, em novembro de 2025, citou atrasos nos depósitos compulsórios como um dos fatores, além de crise de liquidez e descumprimento de normas financeiras. Compulsórios são recursos obrigatórios que bancos precisam manter sob custódia do BC, que atuam como mecanismo de controle do dinheiro em circulação e de estabilidade do sistema.

Mensagens revelam articulações e tentativas de solução

Nas mensagens, Paulo Sérgio avisou Vorcaro sobre a preocupação do BC com o descumprimento dos compulsórios, considerados essenciais por órgãos como o TCU. Vorcaro, por sua vez, tentou amenizar a questão. “Juntou câmbio valor alto com bloqueio do capital”, escreveu em 10 de julho de 2024. “Acabaram não aprovando ainda. Essa semana tem 2 bi de caixa entrando de captação institucional.”

Monitoramento do BC enviado ao TCU mostrou que, em 6 de junho de 2024, o Master registrou pela última vez saldo líquido suficiente para honrar compromissos de depósitos em 30 dias. Depois disso, a situação financeira do banco piorou, culminando em dificuldades para captar recursos e repetidas falhas nos depósitos compulsórios, conforme registrado em novembro de 2024.

Ações do Banco Central e agravamento da crise

O BC chegou a advertir o Master sobre possíveis “medidas prudenciais preventivas”, conforme regras do Conselho Monetário Nacional. Em abril de 2025, o Master foi informado que as ações tomadas eram insuficientes para conter o risco de liquidez. Em maio, pediu dispensa temporária na exigência de compulsórios, mas o pedido foi negado.

Em 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação do Master, depois de descartar flexibilizações e constatar o agravamento dos problemas. Paralelamente, a CPI do INSS foi encerrada sem relatório final, pois Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente do Senado, não autorizou a prorrogação dos trabalhos nem a abertura de novas investigações sobre o caso.

Relações suspeitas e desdobramentos criminais

As investigações também mostraram proximidade de Vorcaro com Paulo Sérgio e Belline Santana, ex-chefe de supervisão do BC. Ambos foram afastados de seus cargos pelo ministro do STF André Mendonça em fevereiro. Segundo a Polícia Federal, eles agiam como “uma espécie de empregado/consultor” de Vorcaro, contrariando a exigência de imparcialidade dos servidores públicos.

Um grupo de WhatsApp reunia Vorcaro, Paulo Sérgio e Belline, em que tratavam de estratégias e trocavam documentos de interesse do Banco Master. Nove dias depois de o BC alertar sobre suspeitas de crimes financeiros que envolviam o Master, Vorcaro recebeu três procedimentos sigilosos do MPF pelo celular enviados por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”.

Entre esses processos estava a investigação sobre a compra do Master pelo BRB, que resultou na prisão de Vorcaro no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em 17 de novembro de 2025, conforme relatou a Folha de S.Paulo.

*Fonte: Revista Oeste