Conflitos no Oriente Médio, expectativas desancoradas e incerteza fiscal ampliam desafios para a inflação
A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) divulgada nesta terça-feira, 5, avalia o cenário econômico como nebuloso. Segundo a ata, “a incerteza com relação ao cenário externo seguiu em níveis elevados”, refletindo tanto os conflitos no Oriente Médio quanto dúvidas sobre a condução da política econômica dos Estados Unidos.
Para o colegiado, o ambiente global continua desafiador, com impactos diretos sobre países emergentes. A autoridade monetária observa que esse contexto contribui para maior volatilidade e dificulta a definição de tendências mais claras. O momento exige cautela, sobretudo diante do aumento dos riscos para a inflação.
No cenário doméstico, o Copom avalia que “a atividade econômica manteve trajetória de moderação no crescimento, tal como antecipado”, destacando que esse movimento é parte do processo necessário para conter a inflação. O comitê reforça que “o arrefecimento da demanda agregada é um elemento essencial” para reequilibrar a economia e permitir a convergência dos preços à meta.

Essa desaceleração, porém, ocorre de forma desigual. A ata registra que “mercados mais sensíveis às condições financeiras apresentam maior desaceleração, ao passo que mercados mais sensíveis à renda apresentam maior resiliência”, o que explica sinais mistos nos indicadores recentes.
Apesar do desaquecimento gradual da atividade, o mercado de trabalho segue forte. O Copom destaca que “a taxa de desemprego tem, recorrentemente, se mantido em patamares historicamente baixos”, enquanto os salários continuam em alta. Esse quadro exige atenção porque pode pressionar a inflação, especialmente no setor de serviços.
No campo fiscal, o alerta é direto. O comitê afirma que “o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal” e as “incertezas sobre a estabilização da dívida pública” podem elevar os juros neutros da economia. Para o BC, é essencial que as políticas sejam “previsíveis, críveis e anticíclicas”, além de haver “políticas fiscal e monetária harmoniosas”.

Copom destaca piora nas expectativas de inflação
Um dos principais pontos de preocupação é a piora nas projeções para a inflação. O Copom reconhece que houve “uma desancoragem adicional” das expectativas para horizontes mais longos.
Segundo o colegiado, esse fenômeno torna o combate à inflação mais difícil. Nesse contexto, a ata é enfática: “em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo”.
Os dados recentes de inflação reforçam o diagnóstico. Segundo o documento, as últimas divulgações “mostraram sinais claros de efeitos dos conflitos geopolíticos no Oriente Médio, situando-se em valores significativamente acima dos inicialmente esperados”. Ainda que haja diferentes interpretações — entre pressão de demanda e efeitos da política monetária —, o Copom indica que o cenário exige postura firme.

No balanço de riscos, o comitê afirma que “os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, permanecem mais elevados do que o usual”. Entre as ameaças de alta, cita “uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado”, além da possibilidade de inflação de serviços mais resistente e de um câmbio mais depreciado.
Por outro lado, há fatores que podem contribuir para aliviar a inflação, como “uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada” ou uma “redução nos preços das commodities”.
O Copom também chama atenção para o impacto prolongado dos conflitos externos. Segundo a ata, “a demora na resolução do conflito no Oriente Médio […] aumenta a probabilidade de impactos mais duradouros para as cadeias de produção e distribuição”. Ao mesmo tempo, reconhece que parte dos riscos já pode estar se materializando, especialmente na deterioração das expectativas.

Foi diante desse cenário que o colegiado decidiu reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto porcentual na última semana, para 14,50%. Segundo a ata, o ritmo e a extensão do ciclo de cortes dependerão da evolução das expectativas de inflação, do ambiente externo e, sobretudo, da condução da política fiscal.
Diante desse quadro, o comitê reafirma seu compromisso com o controle da inflação e destaca que atuará com cautela. A estratégia, segundo o documento, envolve “perseverança, firmeza e serenidade” na condução da política monetária, enquanto novas informações ajudam a esclarecer a dimensão dos choques atuais.
*Fonte: Revista Oeste