Como estão os palanques de Lula e Flávio a 90 dias da eleição

Enquanto o petista tenta preservar seus redutos tradicionais, senador aposta em cabos eleitorais fortes em Estados estratégicos

A eleição presidencial de 2026, cujo primeiro turno acontece no dia 4 de outubro, começou muito antes do início da propaganda eleitoral. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tentará a reeleição, tenta preservar seus redutos e conquistar mais apoio no Sudeste, a direita aposta na força dos governos estaduais e na renovação do Senado para construir um projeto nacional. Nos bastidores, é nos Estados que começa a ser decidido o futuro político do país.

Mais do que vencer governos estaduais, os partidos disputam influência. Em outubro, os brasileiros também elegerão dois senadores por Estado, renovando dois terços da Casa. O resultado ajudará a definir não apenas quem governará o Brasil a partir de 2027, mas também quais serão as condições que o presidente eleito terá para aprovar sua agenda no Congresso.

Os oito maiores colégios eleitorais do país — São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Ceará — concentram cerca de 70% do eleitorado nacional. É justamente nesses Estados que Lula e o senador Flávio Bolsonaro (RJ), pré-candidato do PL ao Planalto, enfrentam seus maiores desafios.

“O Sul e o Centro-Oeste têm votado com a direita. O Nordeste continua sendo o grande bastião de votos do Lula. Já o Sudeste permanece como o fiel da balança”, resume Carlos Eduardo Borenstein, analista político da consultoria Arko Advice.

Racha entre Michelle e Flávio embaralha o jogo no Ceará

Nenhum Estado resume melhor os dilemas da direita do que o Ceará. A decisão do PL estadual de apoiar a pré-candidatura do ex-governador Ciro Gomes (PSDB) ao Palácio da Abolição desencadeou uma crise que extrapolou as fronteiras do Estado e atingiu o núcleo do bolsonarismo. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) gravou vídeos com duras críticas a Flávio Bolsonaro e à possível aliança com Ciro, argumentando que uma composição com um antigo adversário do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) contraria os princípios defendidos pela direita.

O embate também alcançou a disputa pelo Senado. Michelle defende que a vereadora Priscila Costa (PL) ocupe uma das vagas da chapa, enquanto o grupo liderado pelo deputado federal André Fernandes (PL) trabalha para lançar seu pai, o deputado estadual Alcides Fernandes (PL).

Para Borenstein, arregimentar apoio para além do bolsonarismo e, com isso, ampliar o próprio eleitorado é um dos maiores desafios da direita na campanha. “O eleitor bolsonarista mais ideológico dificilmente abandonará Flávio. O problema é conquistar os eleitores de centro. Uma aliança com Ciro pode ajudar nesse objetivo, ainda que provoque desconforto dentro da própria direita”, avalia.

Por outro lado, o PT tenta preservar sua hegemonia no Estado. O governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), buscará a reeleição amparado por Lula e pelo senador e ex-ministro da Educação Camilo Santana (PT), enquanto a base governista ainda trabalha para concluir a composição da chapa. Santana, inclusive, perdeu o posto na liderança do governo no Senado para Teresa Leitão (PT-PE) porque Lula pediu para que ele se dedicasse integralmente à campanha de Elmano à reeleição.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro | Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro criticou o possível apoio do PL a Ciro Gomes (PSDB) no Ceará | Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Lula e Flávio têm problemas em Minas, o Estado-chave da eleição

Segundo maior colégio eleitoral do país, com mais de 16 milhões de eleitores espalhados por 853 municípios, Minas Gerais é uma peça-chave na disputa nacional. Historicamente, quem vence ali acaba conquistando a Presidência da República – foi assim em todos os nove pleitos presidenciais desde a redemocratização, entre 1989 e 2022. Das 13 eleições presidenciais diretas realizadas entre 1945 e 2022, o resultado do Estado coincidiu com o do país em 12.

Minas Gerais é apontado como uma síntese geográfica e econômica da nação, uma espécie de “miniatura” do Brasil dentro do território nacional. Mais pobre, o nordeste de Minas, onde fica o Vale do Jequitinhonha, se assemelha ao Norte e Nordeste do país. Na região oeste do Estado, o Triângulo Mineiro é um grande polo agropecuário e industrial, como o Centro-Oeste do Brasil. O sul de Minas, por sua vez, é mais desenvolvido e muito influenciado por São Paulo, enquanto a zona da mata faz divisa e tem forte ligação com o Rio de Janeiro.

“Se observarmos os porcentuais de votação de cada uma das candidaturas em Minas e compararmos com o resultado da eleição presidencial no Brasil, vemos que historicamente são números muito próximos. Minas Gerais tem espelhado o que acontece no país”, afirma Borenstein. Em 2022, por exemplo, Lula derrotou Jair Bolsonaro por 50,2% a 49,8% no segundo turno em Minas. Em nível nacional, o petista ficou com 50,9% dos votos válidos, ante 49,1% do candidato do PL.

A pouco mais de duas semanas do início do período de convenções partidárias, em 20 de julho, Lula e Flávio Bolsonaro tentam desatar nós para a formação de palanques em Minas. O “plano A” do petista era fazer de Rodrigo Pacheco (PSB) seu candidato ao governador, mas o ex-presidente do Senado declinou. Agora, Lula tenta convencer a ex-prefeita de Contagem (MG) Marília Campos (PT) a disputar o pleito estadual. Ela insiste, entretanto, em manter a pré-candidatura ao Senado, em busca de uma vitória que hoje lhe parece mais próxima.

Marília tem defendido a necessidade de uma “frente ampla” em Minas, reunindo lideranças de outros partidos além do PT. Recentemente, ela se aproximou do pré-candidato do MDB ao governo do Estado, Gabriel Azevedo, ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte e ex-crítico do petismo. Alexandre Kalil (PDT), ex-prefeito da capital mineira, também está no páreo.

No campo conservador, a situação de Flávio é desafiadora. Em tese, o pré-candidato do PL ao Planalto deve apoiar seu colega no Senado, Cleitinho (Republicanos), que lidera todas as pesquisas de intenção de voto. O problema é que o próprio Cleitinho ainda não bateu o martelo sobre concorrer ou não ao Palácio da Liberdade. Apesar de ter dado sinalizações recentes de que pode se lançar ao governo do Estado, ele prometeu uma definição apenas depois do encerramento da Copa do Mundo.

Caso Cleitinho não seja candidato, os nomes mais cotados para representar a direita na eleição são os do ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) Flávio Roscoe (PL); do empresário e ex-prefeito de Betim (MG) Vittorio Medioli (PL); e do ex-prefeito de Patos de Minas (MG) Luiz Eduardo Falcão (Republicanos). Nesse espectro político, também surge o governador e pré-candidato à reeleição, Mateus Simões (PSD), que foi vice de Romeu Zema (Novo) e agora o apoia para a Presidência.

“Há uma vantagem do senador Cleitinho na disputa em Minas, mas a sua candidatura e eventual aliança com Flávio ainda não estão consolidadas. Por outro lado, Lula também tem um grande problema desde a desistência do Rodrigo Pacheco”, observa Borenstein. “A resolução desses desafios pode ter um forte impacto no resultado da eleição em Minas e, consequentemente, na eleição presidencial. São Paulo e Minas Gerais são os dois Estados que podem decidir o pleito nacional”, aposta.

Apesar da importância da construção de palanques fortes em Minas, Borenstein pondera que a associação de votos entre candidatos ao governo do Estado e à Presidência “não é automática”. “O eleitor que vota no Cleitinho não necessariamente votará no Flávio. Em 2006, por exemplo, Aécio Neves [PSDB] foi eleito governador, e Lula, presidente. Em 2010, o mesmo ocorreu com Antonio Anastasia [então no PSDB] e Dilma Rousseff [PT]”, exemplifica. “Mas é evidente que um palanque bem organizado facilita as coisas para qualquer campanha. Em um pleito tão polarizado, a votação em Minas certamente terá um peso nacional significativo.”

Segundo o analista político, embora seja precipitado cravar que o vencedor da eleição em Minas será eleito presidente em outubro, o histórico de votações no Estado não pode ser desprezado. “É uma série muito longa e consolidada, não um dado aleatório. Cada eleição é uma eleição, mas há novamente uma grande possibilidade de que quem vencer no Estado ganhe a disputa nacional.”

O senador Cleitinho (Republicanos-MG)
O senador Cleitinho (Republicanos) vem liderando as principais pesquisas de intenção de voto para o governo de Minas Gerais | Foto: Divulgação/ Senado Federal

O peso dos grandes colégios eleitorais

Se o cenário em Minas permanece indefinido, São Paulo é palco da principal batalha eleitoral do país. No maior colégio eleitoral brasileiro, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) buscará a reeleição e será o principal cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro no Estado.

A chapa da direita deverá contar ainda com o deputado federal Guilherme Derrite (PP) e o deputado estadual André do Prado (PL) como candidatos ao Senado. Do lado de Lula, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) disputará novamente o Palácio dos Bandeirantes, com o ex-governador Márcio França (PSB) na vice e as ex-ministras Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede) candidatas ao Senado.

Na Bahia, Lula chega com o palanque mais consolidado. O governador Jerônimo Rodrigues (PT) tentará a reeleição, tendo ao seu lado o ex-líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT), e o ex-ministro da Casa Civil Rui Costa (PT) como candidatos ao Senado. A direita, por sua vez, aposta na candidatura do ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) ao governo, com o apoio do PL e a presença do ex-ministro João Roma (PL) na disputa por uma das cadeiras no Senado. Apesar da aliança, Neto evita atrelar sua campanha diretamente ao projeto presidencial de Flávio Bolsonaro.

“Apesar da força do PT na Bahia, depois da operação da Polícia Federal contra Jaques Wagner [suspeito de ter recebido propina para beneficiar o Banco Master], o partido está ameaçado”, aponta Borenstein. “Podem surgir fatos novos relacionados ao PT baiano que, eventualmente, respinguem na candidatura do governador Jerônimo Rodrigues à reeleição. Isso pode ser um desgaste para o PT e atingir a campanha do Lula.”

Em Pernambuco, Lula trabalha para manter diálogo tanto com o ex-prefeito do Recife João Campos (PSB), seu aliado histórico no Estado, quanto com a governadora Raquel Lyra (PSD), em uma estratégia para ampliar seu alcance junto ao eleitorado de centro. O palanque do presidente deverá ter João Campos na disputa pelo governo e Humberto Costa (PT) e Marília Arraes (PDT) concorrendo ao Senado. Já a direita ainda enfrenta dificuldades para estruturar uma chapa competitiva ao governo estadual e concentra seus esforços na candidatura do deputado federal e ex-ministro Mendonça Filho (PL) ao Senado.

No Rio de Janeiro, reduto político da família Bolsonaro, o cenário também segue em transformação. A desistência do ex-governador Cláudio Castro de disputar o Senado obrigou o PL a reorganizar sua chapa. O partido lançou o deputado estadual Douglas Ruas ao governo e avalia nomes como o senador Carlos Portinho e os deputados federais Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy para a disputa ao Senado. O palanque de Lula será liderado pelo ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), candidato ao governo, com a deputada federal e ex-governadora Benedita da Silva (PT) na corrida por uma vaga no Senado.

O Paraná é um dos Estados nos quais a direita está mais organizada. Flávio Bolsonaro terá como candidato ao governo o senador Sergio Moro (PL), acompanhado por Deltan Dallagnol (Novo) e pelo deputado federal Filipe Barros (PL) na disputa pelas duas vagas ao Senado. Lula, por sua vez, aposta no deputado estadual Roberto Requião Filho (PDT) para o governo e na deputada federal Gleisi Hoffmann (PT) para o Senado.

No Rio Grande do Sul, os palanques também estão praticamente definidos. Lula apoiará Juliana Brizola (PDT) ao governo, tendo Edegar Pretto (PT) como vice, enquanto o deputado federal Paulo Pimenta (PT) disputará uma das vagas ao Senado. A direita terá Luciano Zucco (PL) na corrida pelo Palácio Piratini e os deputados federais Marcel Van Hattem (Novo) e Ubiratan Sanderson (PL) como candidatos ao Senado.

Lula e Jaques Wagner durante evento do governo federal na Bahia | Foto: Divulgação/GOVBA
Lula e Jaques Wagner, ex-líder do governo no Senado, durante evento do governo federal na Bahia; suspeitas envolvendo as ligações do senador com o Banco Master podem respingar na eleição estadual e atingir a candidatura presidencial do PT | Foto: Divulgação/GOVBA

A batalha que vai além do Planalto

Se a disputa pelos governos estaduais já mobiliza as principais lideranças nacionais, a corrida pelo Senado pode produzir efeitos ainda mais duradouros. A renovação de dois terços da Casa é tratada por PT e PL como prioridade estratégica. Afinal, será o Senado um dos grandes responsáveis por definir o ambiente político do próximo governo, seja na aprovação de projetos, na análise de indicações para tribunais superiores ou de eventuais pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), além da condução de investigações parlamentares.

Para Borenstein, o próximo presidente da República encontrará um Congresso ainda mais fragmentado e autônomo. “A era dos governos com ampla maioria parlamentar ficou para trás. Hoje o Congresso controla uma parcela muito maior do Orçamento e a fragmentação partidária obriga qualquer presidente a construir alianças permanentes”, afirma.

É justamente por isso que a eleição começou antes do calendário oficial. Enquanto o debate presidencial domina as manchetes, o verdadeiro jogo de poder está sendo desenhado nos Estados. E, como a história recente demonstra, quem montar os palanques mais sólidos chega à reta final da campanha em vantagem para disputar não apenas a Presidência, mas também as condições de governar o país pelos quatro anos seguintes.

*Fonte: Revista Oeste