Os sinais que a política não consegue esconder

Na política, discurso é importante. Mas, muitas vezes, o que não acontece diz mais do que aquilo que foi dito diante das câmeras.

E, quando o assunto é Wellington Fagundes, os sinais envolvendo a família Bolsonaro começaram a formar uma sequência difícil de ignorar. Eleição não é apenas sobre o que está escrito na convenção partidária. É também sobre quem aparece ao lado de quem, quem é chamado para determinada agenda e quem fica fora da fotografia.

Wellington é, oficialmente, o candidato do PL ao Governo de Mato Grosso. Isso ninguém discute. Mais os sinais da ala bolsonarista diz o contrário e isso não pode ser ignorado.

Em 31 de agosto, Flávio Bolsonaro esteve em Mato Grosso para uma agenda com lideranças indígenas da etnia Parecis, em Campo Novo do Parecis. Segundo José Medeiros, ele foi o único político inicialmente convidado para acompanhar o presidenciável. Wellington apareceu depois e afirmou que recebeu o aviso em cima da hora. O próprio presidente estadual do PL, Ananias Filho, apresentou outra versão, dizendo que as lideranças foram comunicadas apenas naquela manhã.

A fotografia, entretanto, não precisa de legenda para chamar atenção: Medeiros estava com Flávio. Wellington chegou depois.

E não foi um episódio isolado. No dia 3 de agosto, Abilio Brunini, José Medeiros e Odílio Balbinotti apareceram em uma gravação com Flávio Bolsonaro em Brasília. Wellington não foi citado no vídeo. A gravação ocorreu justamente um dia depois de PL e MDB anunciarem a composição que colocou Janaína Riva, nora de Wellington, na chapa ao Senado.

Aliás, essa aliança talvez seja a peça que melhor explica o desconforto. Wellington apostou na composição com o MDB e levou Janaína para sua chapa. O acordo foi negociado com a direção nacional do PL, sob comando de Valdemar Costa Neto. E o próprio Wellington fez questão de agradecer publicamente a Valdemar pela condução da construção política.

Enquanto isso, a campanha de José Medeiros passou a operar cada vez mais próxima do núcleo presidencial.

No lançamento da campanha de Medeiros, em 17 de setembro, Wellington sequer estava presente. Flávio participou por vídeo. Michelle, Jair, Eduardo e Carlos Bolsonaro também tiveram mensagens exibidas. As manifestações da família Bolsonaro foram direcionadas a Medeiros e ao projeto presidencial de Flávio — Wellington não foi mencionado. Quem precisou fazer a ponte foi justamente seu vice, Reinaldo Morais, que pediu votos para Flávio, Wellington e Medeiros.

É uma cena politicamente curiosa. O candidato a vice de Wellington fazendo aquilo que, em tese, seria natural esperar do próprio palanque presidencial: lembrar que existe um candidato do PL ao Governo.

E há outro detalhe que merece atenção. Wellington chegou a pedir publicamente a Damares Alves que ajudasse a levar Michelle Bolsonaro para Mato Grosso e reforçou o desejo de contar com ela em sua campanha. Depois, a própria Janaína Riva anunciou que Michelle e Flávio participariam da campanha da chapa. Ou seja: há uma sucessão de episódios em que o protagonismo bolsonarista aparece associado a Medeiros, enquanto Wellington fica em segundo plano.

E é justamente aí que entra Pivetta. Porque a eleição deixou de ser apenas uma disputa entre dois candidatos ao Governo. Virou também uma disputa sobre qual projeto consegue falar diretamente com a direita e com o eleitor identificado com Bolsonaro.

Pivetta, que não é o candidato oficial do PL, declarou publicamente que seu grupo apoiará Flávio Bolsonaro. E esse é o paradoxo que torna a eleição mato-grossense interessante: Wellington tem a legenda de Flávio, mas Pivetta têm os apoiadores de Flávio.

A pergunta que circula nos bastidores é: o número 22 deve pesar nas propagandas ou o vínculo político é o que faz a diferença para a base bolsonarista?

Porque, em eleição, existem apoios anunciados.

Existem apoios partidários.

E existem sinais.

E sinal político é como fotografia: pode até ser explicado depois, mas dificilmente deixa de registrar quem estava — e quem não estava — no enquadramento.