Passada a euforia do retorno, eles começam a se deparar com as sequelas do período em que ficaram sob tortura dos terroristas
O trauma dos reféns em Gaza começa a aparecer, quase três semanas depois da libertação dos últimos sequestrados pelo Hamas que estavam vivos. Dois casos estão entre os que mais se destacam, pelas dificuldades depois da libertação, segundo conta a brasileira Marcia Kelner Polisuk. Ela mora há 16 anos em Israel e atua na instituição Hilel. Márcia tem trabalhado como voluntária no auxílio às famílias.
O refém Elkana Bohbot, 36 anos, por exemplo, foi muito maltratado pelos terroristas. Já na chegada a Gaza, ele veio em cima de cinco outras pessoas amontoadas na caminhonete.

“Quando entraram em Gaza, toda a paulada das pessoas que estavam lá e que pularam em cima deles, foi nele”, conta a ativista. “O corpo dele é que segurou isso. A mãe dele diz que durante cinco dias ele não conseguia se mexer e durante 55 dias, como ele era um soldado, apanhou. Neste período, ele não saiu do cômodo em que estava.”
Elkana passou meses sem ver a luz do dia. Ouvia apenas ranger de correntes, passos e vozes dos terroristas. Em raras ocasiões, subia para os cômodos. Numa delas, viu pela TV sua família pedindo sua libertação.
Ele tem sofrido fortes dores abdominais, nas pernas e na lombar por ter ficado muito tempo acorrentado. Também passou meses rodeado de sujeira e sem tomar banho. Esta experiência o fez sair traumatizado de lá, conforme relata a voluntária.
“Ele ficou no túnel sem poder tomar banho por meses”, conta Márcia. “Eles só davam a ele toalhas molhadas para passar no corpo. Enquanto isso, os reféns viviam cercados de baratas, vermes. Banho toda hora é o que ele mais pede. Ele está tomando seis banhos por dia.”
Também o refém Avinatan Or, 32 anos, está lidando com as sequelas. Ele foi fotografado, quando libertado, ao lado da sua namorada Noa Argamani, que havia sido libertada antes. O encontro foi cercado de emoção, mas o sofrimento de Avinatan não irá passar de uma hora para outra, segundo Márcia.
“Ele ficou em uma gaiola com uma altura menor do que a dele”, conta ela. “Ele perdeu 30% da massa óssea dele, 60% do peso. Ele decresceu 4 centímetros. Sabe uma pessoa encolher? E ele é o que chegou no pior estado físico.”
Dias antes de os reféns serem soltos, o Hamas os forneceu comida em excesso, sem se preocupar com advertências médicas de que tal procedimento poderia causar a morte deles, depois de longo tempo de inanição.
Trauma e solidariedade dos reféns
Mesmo com o sofrimento, Márcia ressalta que os reféns, mesmo com o sofrimento, não abrem mão de participarem da campanha pelo retorno de todos os corpos que ainda estão sob controle do Hamas. Eles logo se engajaram a esta causa, como se todos fizessem agora parte de uma mesma família: a dos que voltaram e a dos que não voltaram.
Um deles foi Matan Angrest, 22 anos, que, como muitos outros, já foi à Praça dos Reféns, em Tel-Aviv, quase em seguida à sua libertação. “Vim à praça para homenagear todos os reféns ainda mantidos em Gaza”, disse ele nas redes sociais.
“Estou muito feliz por aqueles que já voltaram para casa; que todos estejam saudáveis, inteiros e, com a ajuda de Deus, se recuperem completamente. Quero dizer que continuaremos esta luta até que o último refém volte para casa, para um enterro digno aqui em Israel. Com a ajuda de Deus, juntos prevaleceremos.”
Angrest, dois dias depois, foi ao enterro do seu comandante de 22 anos, o capitão Daniel Peretz, e prestou sua homenagem. Rezou para que outros colegas consigam retornar, entre eles o sargento Itay Chen, cujo corpo ainda está em Gaza.
“É a menor forma de retribuir ao Daniel e à equipe que lutou comigo”, disse Angrest, apesar do aspecto pálido e da fraqueza visível. “Acredito que eles continuam a me proteger, mesmo do céu.”
Angrest, Peretz e Chen operavam no mesmo tanque quando foram capturados em 7 de outubro.
Sobre Chen, Angrest ressaltou: “Queria que ele voltasse. Estou disposto a ir até Gaza para trazê-lo de volta.”
Márcia descreve o momento em que as pessoas o viram no enterro.
“Ninguém acreditou que ele estava no enterro”, lembra ela. “Ele foi se despedir do comandante e fazer a homenagem. Todos eles, isso que eu reparo, todos os reféns não sossegam enquanto o último não voltar. Todos entram nessa campanha. É algo impressionante.”
*Fonte: Revista Oeste