Recursos do Ministério da Agricultura destinados a Mato Grosso em 2023 colocaram Canarana e Campo Verde no centro de questionamentos sobre os critérios de distribuição das verbas
Em 2023, a distribuição de recursos do Ministério da Agricultura, então comandado por Carlos Fávaro, ganhou repercussão nacional depois que reportagens identificaram que parte das verbas destinadas a Mato Grosso financiaria estradas em municípios onde o empresário Eraí Maggi, padrinho político declarado do ministro, mantém propriedades rurais.
Naquele período, o Ministério empenhou R$ 135,7 milhões para municípios de Mato Grosso, o equivalente a 48,5% dos R$ 279,5 milhões reservados pela pasta naquele recorte de recursos destinados ao fomento do setor agropecuário.
Dois municípios chamaram atenção: Canarana, com R$ 26,3 milhões, e Campo Verde, com R$ 20,9 milhões. Juntos, somavam R$ 47,2 milhões.

O UOL mostrou que Eraí Maggi possuía fazendas nos dois municípios. Em Canarana, um dos trechos previstos ficava na região da Fazenda Cocal. Em Campo Verde, obras alcançavam a região de propriedades ligadas ao Grupo Bom Futuro, controlado pelo empresário.
Padrinho político
A relação entre Fávaro e Eraí não era desconhecida. Em depoimento à CPI do MST, em agosto daquele ano, o próprio ministro se referiu a Eraí Maggi e ao ex-ministro Blairo Maggi como “amigos” e “padrinhos” políticos. “São meus amigos e meus padrinhos”, declarou Fávaro na ocasião. Ele também afirmou ter orgulho da relação com os dois empresários.

Eraí negou ter pedido a Fávaro a liberação dos recursos. Sua explicação foi que o Grupo Bom Futuro possuía produção em dezenas de municípios mato-grossenses e, por isso, investimentos em infraestrutura rural no Estado poderiam naturalmente alcançar áreas próximas às suas propriedades.
Levantamento da Folha de São Paulo mostrou que Fávaro destinou, como senador, R$ 29 milhões em emendas a Jangada, município de 7.426 habitantes administrado pelo correligionário Rogério Meira, do PSD. Segundo o jornal, 98% desses recursos chegaram por transferências especiais, as chamadas emendas Pix. O montante correspondia a R$ 3.956 por habitante, 46 vezes a média nacional considerada pelo levantamento.
Além dessas emendas, Jangada recebeu mais R$ 23 milhões em convênio com o governo federal para melhoria de estradas, com contrapartida municipal de R$ 200 mil. Fávaro esteve posteriormente no município para inaugurações, meses antes da eleição municipal que reelegeu Meira.
A distribuição provocou questionamentos inclusive dentro do governo. Reportagens da época registraram que o Planalto reagiu à concentração inicial das verbas e que houve discussão sobre a execução dos recursos.
Apesar dos questionamentos sobre os critérios utilizados para distribuir os recursos, não houve decisão judicial ou conclusão de órgão de controle estabelecendo que Fávaro tenha cometido crime ou promovido favorecimento ilegal a Eraí Maggi especificamente no episódio de Canarana e Campo Verde.
O que ficou documentado foi a concentração dos recursos na ordem de R$ 135,7 milhões destinados a municípios mato-grossenses, sendo R$ 47,2 milhões empenhados para Canarana e Campo Verde; estradas próximas a propriedades do Grupo Bom Futuro; e a relação política entre Fávaro e Eraí reconhecida publicamente pelo próprio ministro.
