Primeira-ministra Mette Frederiksen busca 3º mandato em eleição marcada por debate sobre imigração, custo de vida e a questão da Groenlândia
Os eleitores da Dinamarca vão às urnas nesta terça-feira, 24, para definir quem comandará o país pelos próximos quatro anos. O pleito ocorre em meio às tensões recentes com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a respeito do futuro da Groenlândia, território semiautônomo do reino.
A primeira-ministra Mette Frederiksen antecipou a eleição no mês passado, com uma aposta de que sua postura durante a crise com Trump fortaleceria sua imagem junto ao eleitorado. Caso consiga formar um novo governo, a líder social-democrata poderá iniciar seu terceiro mandato.
Os dinamarqueses escolherão os integrantes do Folketing, o Parlamento unicameral composto por 179 cadeiras — 175 ocupadas por representantes da Dinamarca e quatro destinadas à Groenlândia e às Ilhas Faroé, também territórios autônomos. Mais de 4,3 milhões de eleitores estão aptos a votar, e a participação costuma ser elevada: em 2022, atingiu 84,2%.

No poder desde 2019, Mette lidera o país, membro da União Europeia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), com destaque para o apoio à Ucrânia na guerra contra a Rússia e por uma política migratória mais rígida. Ainda assim, enfrentou desgaste em seu segundo mandato devido à alta do custo de vida.
Sua popularidade, no entanto, voltou a crescer durante o embate envolvendo a Groenlândia, que incluiu ameaças tarifárias de Trump a países europeus contrários ao controle norte-americano da ilha.
O cientista político Kasper Møller Hansen, da Universidade de Copenhague, disse à agência Associated Press que a premiê pode até se manter no cargo, mas corre o risco de obter o pior desempenho eleitoral de seu partido, possivelmente abaixo dos 27,5% conquistados em 2022.

“Ela ganhou impulso nas pesquisas por temas como Groenlândia, relação com os Estados Unidos e Ucrânia, mas enfrenta forte oposição no cenário doméstico”, avalia.
O sistema proporcional da Dinamarca costuma resultar em governos de coalizão. O atual foi o primeiro, em décadas, a reunir partidos de todo o espectro político.
Mette Frederiksen enfrenta concorrência de dois nomes alinhados à direita. Um deles é o ministro da Defesa, Troels Lund Poulsen, líder do Partido Liberal (Venstre), que já comandou governos recentes, mas hoje aparece enfraquecido nas pesquisas.
O outro é Alex Vanopslagh, da Aliança Liberal, que defende menos impostos, redução da burocracia e o uso de energia nuclear — embora tenha sido prejudicado por admitir uso de cocaína no início de sua liderança partidária.

Também à direita, o Partido Popular Dinamarquês, forte defensor do controle de imigração, tenta se recuperar depois de um desempenho fraco em 2022. Em caso de impasse entre blocos, o Partido Moderado, do chanceler Lars Løkke Rasmussen, pode assumir papel decisivo na formação de governo.
Imigração é tema de destaque nas eleições da Dinamarca
A imigração segue como tema central. A Dinamarca mantém algumas das políticas mais restritivas da Europa, com forte atuação de Mette Frederiksen. Em resposta ao temor de aumento migratório, o governo propôs medidas como um “freio de emergência” para pedidos de asilo e regras mais duras para estrangeiros condenados por crimes.
Outros assuntos dominam a campanha, como custo de vida, aposentadorias e a possível criação de um imposto sobre grandes fortunas. Também ganhou espaço o debate sobre a produção de carne suína — setor em que o país é um dos maiores exportadores globais.
O partido Alternativa defende reduzir drasticamente a produção, priorizando o consumo interno e o bem-estar animal.

A questão da Groenlândia, apesar das tensões recentes, não ocupa papel central na campanha, já que há consenso político sobre sua permanência no reino. Em janeiro, Mette chegou a afirmar que uma eventual tentativa de controle dos EUA sobre a ilha colocaria em risco a Otan, mas a crise perdeu força diante do recuo de Trump e do início de negociações técnicas entre EUA, Dinamarca e Groenlândia sobre segurança no Ártico.
No território autônomo, a eleição também servirá como teste para o premiê local, Jens-Frederik Nielsen, no cargo há cerca de um ano. A campanha expôs divisões internas em seu governo, incluindo a saída de um partido da coalizão depois de disputas envolvendo ministros que concorriam a cargos em Copenhague.
A então chanceler groenlandesa, Vivian Motzfeldt, deixou o posto e posteriormente rompeu com seu partido, o Siumut.
*Fonte: Revista Oeste