Relatório do Gaeco indica ligação entre Reag, Altinvest e negócios milionários operados por criminosos
Promotores do Ministério Público (MP) de São Paulo indicaram uma rede financeira ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC) com participação ativa de executivos da Reag Investimentos e da Altinvest. O jornal O Estado de S. Paulo divulgou as informações nesta terça-feira, 14.
A acusação cita gestão de fundos suspeitos, compra de empresas, ocultação de patrimônio, simulação de negócios e uso de estruturas legais para movimentar dinheiro do crime.
Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), integrantes das duas gestoras ajudaram a encobrir os verdadeiros donos de usinas de etanol, postos de combustíveis, imóveis e operações portuárias.
Os investigadores identificaram assinaturas de representantes da Reag e da Altinvest em transações com empresas de fachada. Muitas dessas companhias foram criadas para blindar o patrimônio de Mohamad Mourad, conhecido como “Primo” e indicado como operador financeiro da facção.
Reag operou usina com dinheiro de suspeito de chefiar esquema
O relatório do Gaeco mostra que a Reag atuou diretamente na aquisição da Usina Itajobi, localizada em Catanduva (SP). A compra foi realizada por meio do fundo Mabruk II, gerido pela Reag e alimentado, segundo o MP, com dinheiro de Mourad. A documentação da operação traz o nome de Walter Martins Ferreira III, então sócio da Reag, como representante legal da usina.
Outro nome citado na transação é o de Ramon Dantas, diretor executivo da Reag DTVM. Ele aparece como signatário da procuração pública usada na aquisição da Itajobi.
Dantas também figura em contratos envolvendo a Urban Prime — empresa ligada ao fundo Zurich que recebeu imóveis suspeitos — e na sociedade Monroy West Agro, ao lado de Armando Mourad, irmão de Mohamad.
Ferreira III teve papel ainda mais direto. Em novembro de 2024, ele foi nomeado diretor de compliance e lavagem de dinheiro da própria Reag.
Na mesma época, atuava como diretor administrativo, financeiro e comercial da Usina Itajobi. Ele deixou a gestora em junho deste ano. Segundo o MP, Ferreira operou ativamente empresas ligadas ao PCC.
Altinvest também tem ligação com empresas do grupo investigado
A Altinvest, outra gestora citada na denúncia, entrou no radar dos promotores por meio de Rogério Garcia Peres. Sócio da empresa, Peres participa de empreendimentos que envolvem nomes diretamente conectados a Mourad. Ele integra o conselho da Rede Sol Fuel, distribuidora de combustíveis que, segundo o MP, recebeu aportes do fundo Mabruk II.
Peres também aparece como sócio de postos de combustíveis em Catanduva e Araçatuba ao lado de Valdemar de Bortoli Junior, presidente da Rede Sol. A gestora afirma que Peres nunca operou postos de combustíveis e que sua atuação se limitou a investimentos imobiliários.
A nota enviada pela Altinvest sustenta que o sócio adquiriu imóveis da BR Distribuidora que haviam abrigado postos desativados, com a intenção de alugá-los a operadores independentes. Peres prestou serviços jurídicos à Rede Sol e, conforme a empresa, nunca participou da gestão executiva.
O Gaeco identificou seis empresas de fachada do grupo Mourad funcionando no mesmo endereço da holding RPN Partners, da qual Dantas, Ferreira III e Silvano Gersztel — também da Reag — são sócios. Todas atuam na Rua Conselheiro Saraiva, 229, em Santana, zona norte de São Paulo.
De acordo com os promotores, esse compartilhamento de endereço serviu para triangular notas fiscais, simular operações comerciais e lavar capitais ilícitos. Uma dessas empresas, a Duvale, inativa em 2020, movimentou R$ 2,79 bilhões em 2021. O MP acredita que ela substituiu a distribuidora Aster, alvo da Operação Cassiopeia e encerrada no ano passado.
A Duvale e outras quatro distribuidoras funcionam no mesmo endereço da Rede Sol Fuel, segundo a denúncia. Parte delas já havia sido classificada como “laranja” em investigações anteriores. O Gaeco encontrou ainda registros de aquisição de caminhões da Rede Sol pela Blue Star Locação, empresa de fachada do grupo Mourad.
Rede portuária também entrou na mira da Promotoria
As operações do PCC investigadas pelo MP também envolvem um terminal portuário em Paranaguá (PR). O responsável por esse braço da rede seria Lucas Pimentel de Oliveira Filho, ex-sócio da Altinvest e da Reag Trust Partners. Ele figurou como diretor de operações da Stronghold Infra Investments, estrutura usada na negociação portuária.
Oliveira Filho nega qualquer envolvimento com irregularidades. Em nota, disse ter trabalhado por “curto período” na Stronghold e repudiou ligações com o esquema.
A Reag afirmou que todas as atividades de seus executivos seguem a legislação vigente e que não há mistura entre o patrimônio dos diretores e os fundos sob administração. A gestora justifica que realizou os atos citados no processo em nome dos fundos, respeitando os limites legais definidos pela CVM e pela Lei 8.668/93.
Ferreira III declarou nunca ter cometido irregularidades e se colocou à disposição da Justiça. Gersztel não respondeu aos pedidos do Estadão. A Altinvest, por sua vez, reiterou que atua com transparência e legalidade.
O advogado de Mohamad Mourad afirmou que seu cliente provará inocência. Ele classificou as acusações como “ilações injustas” e disse que não há provas que vinculem Mourad ao PCC. O empresário está foragido desde que a Justiça decretou sua prisão.
*Fonte: Revista Oeste