Caso Master: 6 fundos investigados são suspeitos de ligação com o PCC

Todos são administrados pela Reag; o Banco Central encaminhou os nomes para o MPF em novembro

O Banco Central (BC) identificou seis fundos de investimento suspeitos de integrar um esquema de fraude liderado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Todos os fundos citados também aparecem em investigações sobre a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) na economia formal.

As informações constam em um cruzamento de dados feito pelo jornal Folha de S.Paulo. A lista de fundos à qual o jornal teve acesso inclui Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna. Juntos, eles somam patrimônio líquido de R$ 102,4 bilhões, conforme dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), reguladora do mercado financeiro.

Os fundos constam em denúncia encaminhada pelo BC ao Ministério Público Federal (MPF) em 10 de novembro, no âmbito das apurações que resultaram na prisão de Vorcaro sete dias depois. Todos são administrados pela Reag, parceira histórica de Vorcaro, e também constam nas investigações da Operação Carbono Oculto, que apura a infiltração do PCC em setores da economia formal, como combustíveis e sistema financeiro.

Polícia Federal
Polícia Federal teve apoio da Receita na Operação Carbono Oculto | Foto: Reprodução/Polícia Federal

Deflagrada pela Polícia Federal em agosto de 2025, a operação Carbono Oculto teve cerca de 350 alvos e buscou atingir o núcleo financeiro do PCC. As investigações chegaram à Reag, que foi alvo de busca e apreensão em sua sede. À época, a empresa afirmou colaborar com as autoridades e declarou ter “certeza de que todos os fatos serão devidamente esclarecidos”.

Entre os ativos do Astralo 95, há o Fundo Galo Forte, por meio do qual Vorcaro mantém participação no Clube Atlético Mineiro, de Belo Horizonte, sua cidade natal. A estrutura de fundos também leva a ativos como a casa utilizada por Vorcaro em Brasília, debêntures da Reag e Certificados de Depósito Bancário (CDBs) emitidos pelo próprio Banco Master.

O Astralo 95 possui ainda certificados de ações do extinto Banco do Estado de Santa Catarina. Conhecidos como cártulas, esses documentos físicos representam ações do antigo banco, incorporado pelo Banco do Brasil em 2008.

Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master | Foto: Divulgação
Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master | Foto: Divulgação

Em outro relatório enviado ao MPF, o BC apontou operações com falhas graves entre julho de 2023 e julho de 2024 em dois fundos estruturados por Master e Reag: o Bravo 95 Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado e o D Mais Fundo de Investimento em Direitos Creditórios.

Procurado, o Banco Master não respondeu aos questionamentos da Folha. A Reag afirmou que não comentaria o caso por não ter conhecimento da denúncia.

As fraudes envolvendo fundos fazem parte de uma série de denúncias do BC ao MPF sobre indícios de irregularidades na atuação do Banco Master. A primeira delas tratou da revenda ao Banco de Brasília de R$ 12,2 bilhões em créditos inexistentes, segundo investigadores.

Sede do Banco Central, que decretou a liquidação do Master nesta terça-feira, 18 | Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Sede do Banco Central, que decretou a liquidação do Master | Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Essa operação motivou a prisão preventiva de Vorcaro, no momento em que ele se preparava para deixar o país. O esquema com fundos de investimento envolvia empréstimos do Master a empresas usadas para desviar recursos, um ciclo que inflava artificialmente o patrimônio dos fundos por meio da compra de ativos de baixo valor a preços elevados.

Os ativos supervalorizados circulavam entre os fundos, por vezes em mais de uma transação no mesmo dia, com os valores inflados registrados no patrimônio das carteiras. A suspeita dos investigadores é que os fundos tenham laranjas como cotistas, usados por Vorcaro para lavar dinheiro em uma cadeia de fraudes.

Ministros do STF em jantar promovido pelo Banco Master, alvo de investigação da PF
Ministros do STF em jantar promovido pelo Banco Master, alvo de investigação da PF | Foto: Reprodução/ X

Esquema do Master lavou mais de R$ 11 bilhões

A denúncia aponta que ao menos R$ 11,5 bilhões teriam sido lavados pelo esquema. Os recursos foram captados pelo Master por meio da venda de CDBs a investidores e utilizados para financiar empréstimos às empresas que, por sua vez, abasteciam os fundos.

Segundo os investigadores, o esquema funcionava da seguinte forma: o Master concedia empréstimos a empresas formalmente independentes do banco, mas integrantes da fraude. Já as empresas aplicavam os recursos em fundos da Reag, mantendo, nos sistemas monitorados pelo BC, a aparência de cumprimento das regras prudenciais.

Na sequência, o gestor do fundo adquiria ativos de baixa liquidez por valores muito acima do mercado e registrava esses preços inflados no patrimônio do fundo. O vendedor obtinha lucro elevado com ativos de pouco valor e reaplicava os recursos em outros fundos, fazendo o dinheiro circular até chegar a carteiras controladas por laranjas ligados ao grupo Master.

*Fonte: Revista Oeste