Fuga de capital: Bolsa brasileira tem déficit de R$ 7,2 bi em agosto

Apenas na última segunda-feira, 10, os investidores estrangeiros retiraram R$ 1,7 bilhão em recursos

A menos de dois meses do primeiro turno das eleições gerais no país, a Bolsa de Valores do Brasil (B3) enfrenta um período de incerteza e turbulência marcado pela fuga dos investidores, em meio à piora na percepção sobre o risco fiscal e aos temores relacionados aos rumos da economia em um eventual quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a partir de 2027.

Apenas na última segunda-feira, 10, os investidores estrangeiros retiraram R$ 1,7 bilhão em recursos no segmento secundário da B3, de ações já listadas. O mercado secundário é o ambiente no qual os investidores compram e vendem ativos financeiros diretamente entre si (como ações, títulos públicos e debêntures) depois da emissão inicial, garantindo liquidez ao sistema.

Com o resultado do dia 10, esse segmento da B3 acumulou cinco sessões consecutivas em que houve mais saída do que entrada de recursos. No acumulado do mês, o déficit da categoria já soma R$ 7,2 bilhões.

Ainda não foi divulgado o resultado do pregão da última terça-feira, 11, dia em que o Ibovespa – principal indicador do desempenho das ações negociadas na Bolsa brasileira – tombou 2,55%. O dado deve ser apresentado pela B3 na quinta-feira 13.

A movimentação dos últimos dias fez com que o EWZ, principal fundo de índice de ações brasileiras negociado em Nova York, voltasse a ficar abaixo da média móvel de 200 dias e interrompendo uma tendência de alta.

O EWZ é o maior fundo de índice do mundo focado em ações brasileiras. Negociado na Bolsa de Nova York (NYSE) e administrado pela BlackRock, ele permite que investidores estrangeiros comprem uma cesta com dezenas de grandes empresas do Brasil em dólar.

“Estamos entrando em uma fase crítica do ciclo eleitoral, em que a volatilidade provavelmente aumentará, limitando o espaço para valorização dos ativos”, afirmou a equipe de ações para América Latina do J.P. Morgan, liderada por Emy Shayo Chernan, em relatório.

“O Brasil tende a apresentar desempenho inferior, tanto em termos absolutos quanto relativos, nos seis meses que antecedem as eleições”, projeta a equipe do banco norte-americano. Em julho, o EWZ havia avançado 6,3%.

Outros dados

Segundo dados da B3, o investidor institucional aportou R$ 1,8 bilhão no dia 10 de agosto. No acumulado do mês, a categoria registra superávit de R$ 2,7 bilhões. No ano, por outro lado, o saldo é negativo em R$ 37,3 bilhões.

Já o investidor individual aportou R$ 85,4 milhões no dia 10. No acumulado de agosto, o saldo é positivo em R$ 760,9 milhões e, no ano, o superávit é de R$ 4,9 bilhões.

Apesar do resultado mensal negativo até o momento, investidores estrangeiros registram um superávit de R$ 29,2 bilhões na parcial do ano.

Ibovespa cai ao menor nível desde janeiro

Nesta terça-feira, 11, o Ibovespa encerrou o pregão em forte queda de 2,55%, aos 167,8 mil pontos, o menor patamar desde o dia 20 de janeiro.

Um dos fatores que derrubaram o principal índice da B3 foi o rebaixamento, por parte do J.P. Morgan, da recomendação para a Bolsa do Brasil – de overweight (equivalente à compra) para neutra.

Segundo Luca Girardi, analista de investimentos da Nomad, no contexto atual, “com a maior dependência do Ibovespa de fluxo estrangeiro e o cenário geopolítico incerto, o mercado doméstico tem se mostrado particularmente sensível ao noticiário”.

“No cenário doméstico, o principal gatilho para o pessimismo foi a divulgação da ata do Copom [Comitê de Política Monetária do Banco Central], que reforçou um tom duro e cauteloso na condução da política monetária. Esse posicionamento do Banco Central ganhou ainda mais peso com a divulgação do IPCA [índice oficial de inflação] de julho, que registrou uma alta de 0,07%, superando levemente as estimativas do mercado, que aguardava um avanço de apenas 0,03%”, explica Girardi.

“Essa combinação de inflação levemente mais resistente e um BC pouco disposto a se comprometer com futuros cortes de juros esfriou os ânimos dos investidores e pressionou o índice”, afirma.

“Externamente, as negociações em Ormuz esfriaram, com o Irã voltando a reafirmar que o estreito não será reaberto sem que suas condições sejam atingidas. O movimento fez com que as bolsas internacionais, que abriram em alta, devolvessem os ganhos, em movimento de aversão a risco”, prossegue Girardi.

“Além disso, o mercado aguarda os dados de inflação de amanhã que serão muito importantes para a definição dos próximos passos do Fed [Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos]. Nesse contexto, os investidores adotaram uma postura amplamente defensiva, empurrando o principal índice da bolsa brasileira para um patamar de baixa relevante.”

*Fonte: Revista Oeste