Copom mantém cautela e deixa ‘porta aberta’ para última reunião do ano, dizem economistas

Mercado avalia que BC pode retomar ciclo de cortes em dezembro, mas isso dependerá de alívio na inflação e da política fiscal

A decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), de interromper o ciclo de cortes na taxa básica de juros e manter a Selic em 13,75% ao ano, anunciada nesta quarta-feira, 4, não surpreendeu o mercado, reforçou uma posição cautelosa da autoridade monetária, mas deixou uma “porta aberta” para a eventual retomada da flexibilização dos juros. 

A avaliação é de economistas e analistas do mercado logo depois da decisão do BC de não mexer nos juros básicos da economia. A Selic segue no menor nível em um ano e oito meses, desde março de 2025. Mesmo assim, o Brasil continua com a taxa de juro real (que desconta a inflação projetada para os próximos 12 meses) mais elevada do mundo, à frente de países como Rússia, Colômbia, Turquia, México, África do Sul e Argentina.

O ciclo de queda da Selic, interrompido nesta quarta-feira, começou em março deste ano, sempre com cortes de 0,25 ponto porcentual a cada reunião. Naquela ocasião, o Copom promoveu o primeiro corte de juros desde 2024.

A taxa básica de juros é o principal instrumento dos bancos centrais para controlar a inflação. Quando a autoridade monetária mantém os juros elevados, o objetivo é conter a demanda aquecida, o que se reflete nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança. Assim, taxas mais altas também podem conter a atividade econômica.

Depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 25 de outubro, houve uma reversão das expectativas dos analistas. Se antes a maioria esperava um novo corte de 0,25 ponto porcentual da Selic, agora cerca de 70% do mercado já trabalhava com a possibilidade de o Copom interromper o ciclo de queda dos juros e manter a taxa no patamar atual, o que acabou se confirmando.

O que diz o mercado

Segundo Pablo Spyer, conselheiro da Ancord, o BC acertou ao interromper o ciclo de cortes da Selic e manter os juros em 13,75% ao ano. “A decisão era esperada pelo mercado, mas o mais importante foi o tom do comunicado: o Copom reconheceu uma piora significativa do cenário inflacionário, elevou suas projeções de inflação e destacou o aumento das incertezas internas e externas”, afirmou.

Para Spyer, o comunicado trouxe uma mensagem importante para as próximas reuniões. “O Copom não fechou definitivamente a porta para novos cortes, mas deixou claro que a retomada do ciclo dependerá de uma melhora consistente da inflação, das expectativas e das condições financeiras. Para dezembro, a manutenção dos juros em 13,75% ganha força como cenário, enquanto um novo corte se tornou mais difícil de justificar”, projeta.  

“A política fiscal, o comportamento do dólar e os preços do petróleo serão fundamentais para determinar os próximos passos. Mais do que uma pausa, o que estamos vendo é um BC disposto a manter os juros elevados por mais tempo para impedir que a inflação se afaste ainda mais da meta. A mensagem aos investidores é que o ciclo de cortes pode ter chegado ao fim, pelo menos por enquanto”, observa Spyer.

Cristiano Oliveira, diretor executivo do Banco Pine, diz que o comitê “destacou a aceleração da inflação cheia e das medidas subjacentes, a deterioração das expectativas e os efeitos dos choques de oferta”. “A projeção para o segundo trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária, subiu para 3,5%, acima da meta. O balanço de riscos também passou a incorporar explicitamente possíveis efeitos secundários da alta do petróleo e dos eventos climáticos sobre os preços livres, a produtividade agrícola e os custos de energia”, afirma. 

Segundo Oliveira, “a retirada da referência à ‘magnitude total do ciclo de calibração’ indica que a pausa poderá se estender além da reunião de dezembro”. “Em nossa avaliação, o comunicado é compatível com a manutenção da Selic em 13,75% na última reunião do ano. A retomada da flexibilização em 2027 dependerá de uma melhora mais consistente das expectativas de inflação, da evolução da política fiscal e da confirmação do processo de desaceleração da atividade”, completa. 

Para Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, o tom do comunicado foi cauteloso e “indica que a autoridade monetária deverá manter a Selic no atual patamar na última reunião do ano”. “O Copom enfatizou a deterioração das expectativas de inflação de médio e longo prazo, o aumento das incertezas em torno do cenário econômico e a necessidade de serenidade na condução da política monetária”, analisa. 

De acordo com Oliveira, embora a atividade econômica apresente sinais mais evidentes de desaceleração, “o comitê avaliou que os riscos para a inflação permanecem elevados e com viés altista, citando tanto fatores externos quanto os impactos das condições fiscais domésticas sobre os preços dos ativos e a condução da política monetária”. 

“A mensagem principal é que a manutenção dos juros em patamar restritivo continuará sendo necessária até que haja evidências mais claras de convergência da inflação e das expectativas para níveis compatíveis com a meta”, afirma. 

José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, observa que, nos últimos dez dias, houve uma desvalorização cambial próxima a 10%, queda nos preços das ações de quase 20 pontos porcentuais e deslocamento da curva de juros. “Sem dúvida, esse movimento dos preços dos ativos vai continuar persistindo durante algum tempo e deve, inclusive, afetar a taxa de inflação nos próximos meses, o que, muito provavelmente, deverá fazer com que o próximo Copom tenha que elevar a taxa de juros”, alerta. 

Segundo Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, o comunicado do Copom “preserva o cerne da reunião de setembro”. “O balanço de riscos segue com assimetria altista e praticamente os mesmos fatores de alta e de baixa. O parágrafo sobre política fiscal foi repetido sem alterações, e o comitê mantém a referência à convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante”, afirma. 

“As mudanças estão no diagnóstico. O ambiente externo deixou de ser descrito como incerto e passou a ser chamado de mais adverso. O texto agora menciona diretamente o efeito do prolongamento dos conflitos no Oriente Médio sobre o petróleo e a política monetária mais restritiva nas economias avançadas”, prossegue Kayo. 

Para o economista, “o Copom não deu pistas sobre os próximos passos”. “A leitura é de uma pausa que deixa a porta aberta, com as decisões condicionadas à evolução dos dados. O comitê manteve a ênfase em serenidade e cautela na condução da política monetária”, destaca. 

Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, entende que a decisão “reflete a deterioração das condições prospectivas de inflação”, especialmente a desancoragem das expectativas, as pressões cambiais e os choques de oferta associados ao petróleo, “que passaram a se sobrepor aos sinais mais evidentes de desaceleração da atividade econômica”. 

“A avaliação da inflação corrente também apresentou deterioração em relação à reunião anterior. Em setembro, o Copom destacava que tanto a inflação cheia quanto a média das medidas subjacentes estavam abaixo do limite superior do intervalo de tolerância da meta. Agora, o comunicado registra aceleração de ambas, novamente acima desse limite”, compara Benedito. 

“A mudança é relevante porque combina uma piora da inflação observada com revisões altistas das projeções futuras, ampliando a necessidade de cautela na condução da política monetária. As expectativas da pesquisa Focus reforçam esse quadro, com projeções de 5,2% para 2026 e 4,8% para 2027, mais distantes do centro da meta”, explica. 

De acordo com a economista, o comitê “reiterou o acompanhamento dos efeitos da política fiscal doméstica sobre os ativos financeiros e a política monetária, em um contexto de maior incerteza e deterioração das expectativas de inflação para horizontes mais longos”. 

“A preocupação central está na possibilidade de que a desancoragem aumente a persistência inflacionária e o custo de desinflação, exigindo a manutenção de condições monetárias restritivas por um período mais prolongado. Ao mesmo tempo, o comunicado reconhece que uma desaceleração doméstica mais intensa constitui um risco baixista para a inflação, evidenciando a complexidade da atual combinação entre choques de oferta e enfraquecimento da demanda”, avalia. 

Para Rafael Cardoso, economista-chefe do Banco Daycoval, o comunicado traz “algumas novidades em relação ao diagnóstico do cenário, mas faz pouca referência à volatilidade recente dos ativos financeiros”. 

“Em uma análise mais ampla, o BC apresenta uma avaliação mais adversa do cenário externo e aponta que a desaceleração da atividade econômica doméstica tem ganhado força, especialmente nos setores mais cíclicos, embora o mercado de trabalho continue resiliente”, avalia. “Também destaca o distanciamento das expectativas de inflação em relação à meta e mantém o balanço de riscos assimétrico na direção altista, considerando tanto os riscos de alta quanto os de baixa para a inflação.”

Segundo Cardoso, a principal novidade, além da própria manutenção da taxa, está no parágrafo final do comunicado. “Nele, o BC expressa de forma mais clara que o aumento significativo das incertezas em torno do cenário-base, combinado às expectativas de inflação mais elevadas e à desaceleração da atividade econômica, configura um ambiente mais desafiador, que demanda serenidade e cautela”, destaca. 

“Ainda assim, o comunicado traz poucas sinalizações sobre os próximos passos da política monetária. Não indica se a taxa será mantida na próxima reunião ou se o ciclo de cortes será retomado. Ou seja, o BC optou pela manutenção da Selic nesta reunião, mas deixou em aberto o que poderá acontecer nas seguintes”, diz. “Em outras palavras, a porta permanece aberta para diferentes movimentos, especialmente se houver alguma mudança que leve as expectativas de inflação de volta a um patamar mais confortável ou que resulte em uma nova apreciação do real frente ao dólar.”

Entidades de indústria e comércio também se manifestam

Em nota, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) criticou a manutenção dos juros em 13,75% ao ano, ao dizer que o BC “insiste em um aperto monetário desmedido, que coloca a taxa básica em um patamar aproximadamente de três vezes a inflação corrente”. 

“Na prática, a autoridade monetária pune quem produz e consome. O crédito bancário tomado pelo setor produtivo e empreendedores na casa dos 30% ao ano inviabiliza investimentos, e o endividamento recorde das famílias e empresas se agrava a cada mês. Para as contas públicas, a fatura custa mais de R$ 1 trilhão por ano apenas no pagamento de juros da dívida. É urgente readequar as políticas monetária e fiscal para trazer a Selic a níveis toleráveis e devolver a competitividade à economia brasileira”, afirmou o presidente da Fiesp, Paulo Skaf.

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), por sua vez, foi em sentido contrário e defendeu a posição do Copom. Segundo a entidade, embora juros menores sejam desejáveis para fomentar a atividade econômica, a conjuntura atual não oferece condições seguras para novos cortes na Selic neste momento. 

“Uma redução adicional de 0,25 ponto porcentual teria efeito limitado sobre a atividade, mas poderia ser interpretada pelo mercado como um sinal de tolerância maior com os riscos inflacionários, pressionando ainda mais o câmbio e os juros de longo prazo, que determinam boa parte do custo dos financiamentos para empresas e famílias”, diz a entidade. 

Próxima reunião será a última do ano

A reunião do Copom concluída nesta quarta-feira foi a primeira depois do encerramento do processo eleitoral no Brasil. O primeiro turno das eleições aconteceu no dia 4 de outubro, e o segundo, em 25 de outubro. Contrariando a maioria das projeções do mercado e das pesquisas, Lula derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) e foi reeleito.

A próxima reunião do Copom, a oitava do ano, está marcada para os dias 8 e 9 de dezembro. Será o último encontro da autoridade monetária para definir a taxa básica de juros em 2026.

*Fonte: Revista Oeste